Página anterior

ÂNGELA E CAUBY

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1999

 


Quem viu, viu. Quem não viu, não sei se verá mais.

Ângela Maria e Cauby Peixoto, eternos, divinos e maravilhosos, fizeram, juntos, uma pequena temporada no Tom Brasil, aqui em São Paulo. Terminou domingo. Uma pena. Por vários motivos. Primeiro porque o ingresso era relativamente caro e seus grandes e numerosos fãs não puderam ter acesso. Por que não um show popular, no Pacaembu, por exemplo? E também, é óbvio, o espaço era pequeno demais - apesar de grande e aconchegante - para eles dois.

Mas durante a uma hora e meia de espetáculo fiquei tirando umas conclusões. Apressadas ou não. Uma delas é que não se fazem mais cantores como eles. E por quê? Será que a dor de corno e de cotovelo, o amor desesperado, a perfídia, a traição, acabaram?

Ângela e Cauby são de uma outra época. Diferente. Muito diferente. Por exemplo: naquele tempo os compositores e compositoras compunham para cantores e cantores. Para determinados cantores. Cada músico tinha seus intérpretes prediletos. Isso acabou.

Mas o que fiquei pensando ali na cadeira do Tom Brasil foi como a revolução de 64 mudou a rota do nosso mundo artístico. Os compositores que surgiram nos anos sessenta e que estão até hoje por aí, mudaram as letras. No lugar do amor, a tortura, da flor, a perseguição. Notaram isso? Será que eu estou certo ou viajei de vez para o passado?

Não sou um teórico das nossas artes, mas acho que alguém mais bem informado e familiarizado com teses podia fazia um estudo sobre isso. A influência do nefasto golpe de 64 nas nossas artes.

Fiquei pensando no nosso teatro. Nunca surgiram tantos e bons autores no Brasil como nos anos 60 e 70. Peças pesadas sérias, nada de comédia. O país agonizava nos nossos palcos.

Ouvir Ângela Maria e Cauby Peixoto é ouvir um outro Brasil. Um outro som, uma outra saudade, um outro amor. Ouvir os dois é lembrar de nossos pais ainda jovens, nossos avós vivos, aquela tia maluca, aquele tio que nunca trabalhou, aquele rapazinho metido a juventude transviada tentando cantar em inglês.

Que vozes, cara. Que tons brasis. A platéia, na maioria gente acima dos cinqüenta, chorava. Tenho certeza que todos ali, ficavam ouvindo babalus e conceições atentamente, pensando como eles - os espectadores - eram naquele tempo. Uma viagem, através da música, para dentro de cada um de nós. Uma músico-terapia, como diria meu amigo Nelson Motta Mello. Eu disse lá atrás que o ingresso era um pouco caro. Mas posso garantir que era bem mais barato que uma sessão de terapia.

É isso, gente. Saudade de um Brasil com menos meninos nas ruas, com menos sem-terra, com muito menos corrupção, com políticos mais íntegros, com um futebol muito mais organizado, com os craques brasileiros jogando nos nossos campos lotados. Lembra? Parece que foi ontem.

O Tom Brasil, do meu amigo Paulo Amorim, parceirinho bom de spa, tem essa característica. Mostrar a música brasileira. A de hoje e, principalmente, a de ontem. Que nos tragam mais ângelas e caubys, que nos tragam sempre, para a minha geração e para as novas, este Brasil que andava tão esquecido, e era tão maravilhoso.

Obrigado Paulinho, obrigado Ângela Maria, obrigado Cauby Peixoto. E obrigado Luiz Carlos Miele, que dirigiu o show com a competência de sempre.

Me desculpe esse saudosismo talvez meio fora de hora, mas eu não resisti. É que me deu uma saudade danada de mim mesmo.

Obrigado Brasil.