Quem viu, viu. Quem não viu, não sei se
verá mais.
Ângela Maria e Cauby Peixoto, eternos,
divinos e maravilhosos, fizeram, juntos, uma pequena temporada no Tom Brasil, aqui em São
Paulo. Terminou domingo. Uma pena. Por vários motivos. Primeiro porque o ingresso era
relativamente caro e seus grandes e numerosos fãs não puderam ter acesso. Por que não
um show popular, no Pacaembu, por exemplo? E também, é óbvio, o espaço era pequeno
demais - apesar de grande e aconchegante - para eles dois.
Mas durante a uma hora e meia de
espetáculo fiquei tirando umas conclusões. Apressadas ou não. Uma delas é que não se
fazem mais cantores como eles. E por quê? Será que a dor de corno e de cotovelo, o amor
desesperado, a perfídia, a traição, acabaram?
Ângela e Cauby são de uma outra época.
Diferente. Muito diferente. Por exemplo: naquele tempo os compositores e compositoras
compunham para cantores e cantores. Para determinados cantores. Cada músico tinha seus
intérpretes prediletos. Isso acabou.
Mas o que fiquei pensando ali na cadeira
do Tom Brasil foi como a revolução de 64 mudou a rota do nosso mundo artístico. Os
compositores que surgiram nos anos sessenta e que estão até hoje por aí, mudaram as
letras. No lugar do amor, a tortura, da flor, a perseguição. Notaram isso? Será que eu
estou certo ou viajei de vez para o passado?
Não sou um teórico das nossas artes,
mas acho que alguém mais bem informado e familiarizado com teses podia fazia um estudo
sobre isso. A influência do nefasto golpe de 64 nas nossas artes.
Fiquei pensando no nosso teatro. Nunca
surgiram tantos e bons autores no Brasil como nos anos 60 e 70. Peças pesadas sérias,
nada de comédia. O país agonizava nos nossos palcos.
Ouvir Ângela Maria e Cauby Peixoto é
ouvir um outro Brasil. Um outro som, uma outra saudade, um outro amor. Ouvir os dois é
lembrar de nossos pais ainda jovens, nossos avós vivos, aquela tia maluca, aquele tio que
nunca trabalhou, aquele rapazinho metido a juventude transviada tentando cantar em
inglês.
Que vozes, cara. Que tons brasis. A
platéia, na maioria gente acima dos cinqüenta, chorava. Tenho certeza que todos ali,
ficavam ouvindo babalus e conceições atentamente, pensando como eles - os espectadores -
eram naquele tempo. Uma viagem, através da música, para dentro de cada um de nós. Uma
músico-terapia, como diria meu amigo Nelson Motta Mello. Eu disse lá atrás que o
ingresso era um pouco caro. Mas posso garantir que era bem mais barato que uma sessão de
terapia.
É isso, gente. Saudade de um Brasil com
menos meninos nas ruas, com menos sem-terra, com muito menos corrupção, com políticos
mais íntegros, com um futebol muito mais organizado, com os craques brasileiros jogando
nos nossos campos lotados. Lembra? Parece que foi ontem.
O Tom Brasil, do meu amigo Paulo Amorim,
parceirinho bom de spa, tem essa característica. Mostrar a música brasileira. A de hoje
e, principalmente, a de ontem. Que nos tragam mais ângelas e caubys, que nos tragam
sempre, para a minha geração e para as novas, este Brasil que andava tão esquecido, e
era tão maravilhoso.
Obrigado Paulinho, obrigado Ângela
Maria, obrigado Cauby Peixoto. E obrigado Luiz Carlos Miele, que dirigiu o show com a
competência de sempre.
Me desculpe esse saudosismo talvez meio
fora de hora, mas eu não resisti. É que me deu uma saudade danada de mim mesmo.
Obrigado Brasil.