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Ana Paula no meio da guerra

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o estado de s. paulo

26/03/2003

 


"Pelo menos cinco torcedores do Corinthians foram baleados nesta noite em um ponto de ônibus na Estrada de Itapecerica, zona sul de São Paulo, durante a comemoração da vitória do time sobre o São Paulo. Segundo informações da Polícia Militar, o grupo foi alvejado por torcedores do São Paulo. Eles foram socorridos para um pronto-socorro da região, mas ainda não há informações sobre o estado de saúde dos feridos." (site Terra, de sábado passado) Enquanto isso, em Bagdá...

No site da BOL encontro o mapa astral do Bush (o que Saddam quis matar o papai dele):

"Carismático, atraente, sagaz e exibindo controle de si, Bush nasceu com uma poderosa conjunção entre Vênus, Mercúrio e Plutão no Ascendente. Pensador independente, muito capaz, sua inteligência é reconhecida facilmente quando expressa sua personalidade. Vênus em Leão é muito importante nesta carta, pois domina o Meio-Céu, a vocação social da pessoa, indicando aqui enorme capacidade de trabalhar com pessoas, maestria diplomática, forte ligação com os valores da comunidade. Capaz de sentir no ar as oportunidades e adaptar-se às mudanças, Bush conta também com um trígono entre a Lua e Urano, assim como entre Júpiter e Urano. Marte em Virgem no setor de valores indica ainda forte agressividade na perseguição de seus valores e do que acredita.

Dizem os astrólogos de seu país que sobre ele pesa a maldição de ter sido eleito em um daqueles anos em que presidentes norte-americanos são assassinados."

Enquanto isso, em Bagdá...

Mas a guerra a que me refiro no título é a nossa, a brasileira. Sim, aquela que saiu das manchetes dos jornais brasileiros. Não sei por que, mas o leitor brasileiro se empolga mais com a loucura do Bush do que com o assassinato do juiz no interior de São Paulo. Sim, na nossa pouco empolgante guerra à brasileira, eles começaram matando advogados, agora matam juízes.

Dentro de um ano estarão matando prefeitos, governadores e chegarão a Brasília. Depois de matarem o nosso presidente, o papa que se cuide. Mas nada disso nos interessa, a nossa guerra civil não é mostrada pela CNN. É guerrinha de pobre.

Enquanto isso, em Bagdá...

Você não conheceu o Lino. O Lino era um garoto de 22 anos, morador de São Paulo, estudante. No dia 27 de dezembro passado, uma bela sexta-feira entre o Natal e o ano-novo, pegou o carro do avô para ir para a balada. Em frente do Jockey Club, numa tentativa de assalto, levou um tiro na cabeça, perdeu a direção do carro e a vida. Seu carro bateu num poste. Lino estava morto. Seu avô, seu pai, sua mãe, seus irmãos não estão tendo um bom ano-novo. E agora - pasme! - a Eletropaulo está processando o dono do carro - o avô do jovem assassinado - por danos materiais no seu poste de luz. Quer que eu repita? A Eletropaulo está processando o avô do jovem assassinado. Em tempo: até hoje, a polícia não sabe quem matou o Lino. Só sabe que o garoto estragou um poste. Quer que eu repita?

Enquanto isso, em Bagdá...

O caso do Lino foi um acontecimento tão normal, tão banal, que nem saiu nos jornais. Dezenas de Linos morrem por dia em São Paulo e a coisa fica por isso mesmo. Se o menino fosse iraquiano sairia na Globo.

Enquanto isso, aqui em São Paulo, guerra mesmo foi entre o Corinthians e o São Paulo. Uma guerra organizada pelo Farah (seria ele iraquiano?), um sujeito que pinta as bolas de prateado, organiza um campeonato onde o nono colocado sai da disputa no meio, diz que cartão amarelo vale pontos e não sabe português, redigindo um regulamento que a ONU não entenderia e o Bush não teria dúvida de mandar um teleguiado até a sede da Federação Paulista de Futebol.

Mas na guerra do Morumbi, no sábado passado, que começou com duas baixas logo no começo do tiroteio, havia alguma coisa pacífica e bonita dentro das quatro linhas do gramado. Mais precisamente em cima de uma das linhas laterais. Uma bandeirinha. Ou, como quer o Saddam, digo, Farah, uma auxiliar de arbitragem. Sim, do lado de lá do campo, de frente para as câmeras, corria a Ana Paula com suas pernas maravilhosas. E foi perfeita. Levantava o pau da bandeira na hora certa. E fez com que o Vampeta só fizesse jogadas lá pelo lado dela. Tão perfeita que, quando o Jorge Wagner soltou o terceiro míssil - e definitivo do fim da guerra -, eu nem vi. Estava esticando os olhos para as pernas que, imediatamente corriam para o meio de campo. Olha aí Playboy, o título da capa: Ana Paula sem a bandeira.

Depois, deram uns tiros em cinco ou seis corintianos. Mas quem sem importa com isso? Naquele momento estava todo mundo ligado na CNN e no genocídio americano.

Feliz do Brasil onde não temos nem terremotos nem guerra. Somos um povo pacífico e de Primeiro Mundo. Aqui, bateu no poste tem de pagar. Isso que é civilização.