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Ana Claudia tomou bomba e se confessou

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1975

 


Trechos do Diário de Ana Cláudia onde ela explica  porque foi reprovada na quarta série ginasial, em 1959:

12 de dezembro: O tantum ergo sacramentum eu ainda admito, querido Diário, mas a quarta declinação eu não engulo mesmo. Nem morta. Para você eu posso dar as minhas explicações porque você me entende. Pelo menos fica aí quietinho e não me enche o (aquilo). Quer dizer, tem uma porção de motivos. Eu tentei explicar para o papai e para a mamãe, mas eles não me ouvem. Meus pais não me entendem. O papai ainda rne ameaçou com mais um ano de internato. O que eu vou dizer para a Glorinha, tadinha?
Em primeiro lugar, a culpa foi dele mesmo. Eu estava externa e aí me colocaram interna. Isso significou que eu tive que mudar de classe bem no meio do ano. Uma aula diferente — mais escura — e algumas professoras que eu nunca tinha visto. Isso de mudar de professora complica muito. Ciências, por exermplo, a Irmã Judith estava dando os óxidos e a nova, a Irmã Dolores, já estava nas bases. Aliás a Irmã Dolores dava Física e Química e como era a mesma professora, eu nunca ficava sabendo aula do que que era. Um inferno.
Em segundo lugar, a perseguição da professora de Latim, que queria que a gente decorasse tudo na ponta da língua. Eu não tenho a menor pretensão de prestar vestibular para Direito, então eu não sei porque é que eu tenho que estudar Latim. Dá vontade de mandar tudo à (aquele lugar). Eu precisava tirar seis e meio no oral. A professora sabia. Aquela freira desgraçada sabia. Ela também sabia que a quarta declinação me deixava louca. E o que foi que ela me pediu? Exatamente: a quarta declinação. Mais nada. No singular ainda deu para dar uma enganadinha, mas o plural é fogo.
Em terceiro lugar: eu dormia mal, tinha sonhos incríveis, pesadelos de meter medo até em meninos, comia mal, porque tinha que comer correndo no refeitório e me distraía nas aulas olhando pelas janelas para o colégio dos meninos. Eu acho que não tive a menor culpa da bomba que eu levei. O que você acha?
13 de dezembro: Amanhã, finalmente, eu deixo o internato. Tivemos que ficar aqui mais três dias para fazer o retiro espiritual. Tenho aproveitado todas as horas de meditações para bolar todas as loucuras que vou fazer quando sair daqui. Ontem, tivemos que ficar quase três horas de joelhos diante de Nossa Senhora Auxiliadora para que ela nos perdoasse de todos os pecados cometidos durante todo esse ano. Estou com os joelhos que só vendo. Mesmo assim acho que foi pouco tempo para os meus pecados. Pecados que elas acham que são pecados. Tenho pecados que as freiras nem imaginam que alguém com a minha idade possa cometer. Hoje cedo,  na hora da confissão — todas foram obrigadas a se confessar e comungar
 — o padre André me fez as seguintes perguntas: pensou em coisas feias? Deixou que fizessem coisas feias com você? Olhou para coisas feias? Fez coisas feias? Viu coisas feias e não avisou ninguém? Sabe de alguém que anda fazendo coisas feias?
Querido Diário, será que ele só pensa nisso?