Extraído do Diário de Ana
Claudia: de 7 de maio
de 1956, quando
contava com
12 anos
de idade:
Quando
entramos na sala
da diretoria
do colégio,
a Irmã Blanche foi logo dizendo:
—Podiam me
dizer por que
a Irmã Laura
mandou vocês
para
a diretoria?
Pensei até que ela
ia
dizer delegacia, mas
foi a Glorinha quem
começou a explicação:
—Por nada, não. Por
causa
da régua.
—Régua?
—Essa aqui.
A Irmã Laura mandou trazer também.
Ela pegou a
régua:
—Quem bateu
em quem?
—Ninguém
não senhora!
A Irmã
Blanche foi para a cadeira dela em cima de um negócio de madeira com a régua
na mão e ar salesianamente sábio:
—Só vão
para casa quando alguém disser que bateu em alguém com a régua.
A verdade é
que ninguém tinha batido em ninguém com a régua. Eu e a Glorinha ficamos uma
olhando para a outra. Alguém ia ter que dizer, que contar a história da
régua, antes que a Irmã Laura mesmo fizesse. Aí, ia ser bem pior. Enquanto a
Irmã Blanche ficava batendo com a régua na mesa bem devagarzinho, a Glorinha
ficava indicando com o lábio de baixo para eu falar. Eu, com o mesmo gesto,
dizia que ela que tinha que falar.
—E então,
disse a freira, quem vai falar?
—Eu falo,
disse a Glorinha.
E começou a
falar sem parar para a cara cada vez mais assustada da diretora do colégio.
—Sabe o que
que é, Irmã Diretora? (A Irmã faz que não com a cabeça e me olha) É que a
gente tem a mania de uma coçar a outra. Nas duas primeiras aulas eu coço ela
e depois do recreio ela me coça. Às vezes a gente troca.
—Coçar!?
Com a régua?
—Com a
régua, sim senhora, (tive a coragem de dizer, branca)
—Nas
costas?
Quem
continuou respondendo fui eu.
—É, nas
costas e em outros lugares.
—Outros
lugares? Quais? (e se pôs de pé) Quais?
A Glorinha:
—(rápida,
duma só golfada) Pescoço, cintura, braço e cotovelo. (calma) Cotovelo só de
vez em quando.
—Na nuca,
também?
—Também.
E eu me
adiantei:
—Na nuca é
que é melhor.
—Quantos
anos que vocês têm?
—Doze (as
duas).
—E como que
coça? Com a parte fina ou com a parte grossa?
A Glorinha
olhou pra mim, e olhei pra ela. A gente não tinha mesmo entendido aquela
história de lado fino e grosso. Foi a Glorinha quem teve a coragem de dizer:
—Não
entendemos, Irmã Diretora.
— Eu quero
saber se vocês escorregam a régua assim de fininho ou assim de larguinho
(ela fez a demonstração e nós entendemos):
—De fininho
e larguinho. Depende do lugar. Na nuca de fininho é mais gostoso. Na
barriga, bom é tapinha, assim de lado, quer ver? Me dá a régua aí.
—Tira a mão
daí, menina! (bem para mim) E o que é que você sente quando a Glorinha passa
a régua no seu corpo ?
—Ué, uma
gasolina subindo dentro da gente. Não é isso, Glorinha?
—É. Uma
gasolina. Um friozinho. É engraçado porque no final a gente vai passando
mais depressa e o friozinho vai aumentando. Dá vontade de rir.
A Diretora
sentou-se novamente, guardou a régua numa gaveta enorme que fechou com uma
chave pequenininha e sumiu com ela dentro do imenso hábito preto e branco:
—Muito bem,
meninas. Vocês podem voltar para a aula. E peçam para a mãe de vocês dar uma
passadinha aqui hoje à tarde, sem falta. Podem sair.
A mamãe
está lá
no colégio agora,
Querido Diário.
Será que
é proibido até
coçar?