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Ana Claudia, Glorinha e a régua

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29.7.75

 


Extraído do Diário de Ana Claudia: de 7 de maio de 1956, quando contava com 12 anos de idade:

Quando entramos na sala da diretoria do colégio, a Irmã Blanche foi logo dizendo:

—Podiam me dizer por que a Irmã Laura mandou vocês para a diretoria?

Pensei até que ela ia dizer delegacia, mas foi a Glorinha quem começou a explicação:

—Por nada, não. Por causa da régua.

—Régua?

—Essa aqui. A Irmã Laura mandou trazer também.

Ela pegou a régua:

—Quem bateu em quem?

—Ninguém não senhora!

A Irmã Blanche foi para a cadeira dela em cima de um negócio de madeira com a régua na mão e ar salesianamente sábio:

—Só vão para casa quando alguém disser que bateu em alguém com a régua.

A verdade é que ninguém tinha batido em ninguém com a régua. Eu e a Glorinha ficamos uma olhando para a outra. Alguém ia ter que dizer, que contar a história da régua, antes que a Irmã Laura mesmo fizesse. Aí, ia ser bem pior. Enquanto a Irmã Blanche ficava batendo com a régua na mesa bem devagarzinho, a Glorinha ficava indicando com o lábio de baixo para eu falar. Eu, com o mesmo gesto, dizia que ela que tinha que falar.

—E então, disse a freira, quem vai falar?

—Eu falo, disse a Glorinha.

E começou a falar sem parar para a cara cada vez mais assustada da diretora do colégio.

—Sabe o que que é, Irmã Diretora? (A Irmã faz que não com a cabeça e me olha) É que a gente tem a mania de uma coçar a outra. Nas duas primeiras aulas eu coço ela e depois do recreio ela me coça. Às vezes a gente troca.

—Coçar!? Com a régua?

—Com a régua, sim senhora, (tive a coragem de dizer, branca)

—Nas costas?

Quem continuou respondendo fui eu.

—É, nas costas e em outros lugares.

—Outros lugares? Quais? (e se pôs de pé) Quais?

A Glorinha:

—(rápida, duma só golfada) Pescoço, cintura, braço e cotovelo. (calma) Cotovelo só de vez em quando.

—Na nuca, também?

—Também.

E eu me adiantei:

—Na nuca é que é melhor.

—Quantos anos que vocês têm?

—Doze (as duas).

—E como que coça? Com a parte fina ou com a parte grossa?

A Glorinha olhou pra mim, e olhei pra ela. A gente não tinha mesmo entendido aquela história de lado fino e grosso. Foi a Glorinha quem teve a coragem de dizer:

—Não entendemos, Irmã Diretora.

— Eu quero saber se vocês escorregam a régua assim de fininho ou assim de larguinho (ela fez a demonstração e nós entendemos):

—De fininho e larguinho. Depende do lugar. Na nuca de fininho é mais gostoso. Na barriga, bom é tapinha, assim de lado, quer ver? Me dá a régua aí.

—Tira a mão daí, menina! (bem para mim) E o que é que você sente quando a Glorinha passa a régua no seu corpo ?

—Ué, uma gasolina subindo dentro da gente. Não é isso, Glorinha?

—É. Uma gasolina. Um friozinho. É engraçado porque no final a gente vai passando mais depressa e o friozinho vai aumentando. Dá vontade de rir.

A Diretora sentou-se novamente, guardou a régua numa gaveta enorme que fechou com uma chave pequenininha e sumiu com ela dentro do imenso hábito preto e branco:

—Muito bem, meninas. Vocês podem voltar para a aula. E peçam para a mãe de vocês dar uma passadinha aqui hoje à tarde, sem falta. Podem sair.

A mamãe está lá no colégio agora, Querido Diário. Será que é proibido até coçar?