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Ana Claudia e a arte de pegar na mão

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17 de junho de 1957: O Nando quer me namorar. A Glorinha veio me dizer, mas nem precisava porque eu já estava desconfiada desde que ele brigou com a Maria Eunice. Eu acho que vou mandar dizer que quero. Afinal, já tenho treze anos! A única coisa que eu tenho medo, querido Diário, é que ele pegue na minha mão no primeiro dia. Todo mundo já veio me avisar que ele é de pegar a mão no primeiro dia. A mamãe acha que eu só devo pegar na mão depois de um mês mais ou menos. Mas, conforme eu fiquei sabendo, o Nando, depois de um mês mais ou menos, quer pegar em outras coisas. Mas, comigo, não!

18 de junho de 1957: Mandei dizer ao Nando que aceito ele em namoro. Marcamos na sessão das seis, domingo, para começar. Vai passar O Negócio é Perguntar Pela Maria, com o Zé Trindade e a Renata Fronzi. Confesso, querido Diário, que estou um pouco temerosa (nunca tinha escrito essa palavra antes).

19 de junho de 1957: Amanhã eu começo a namorar o Nando e sei que ele vai querer pegar na minha mão. É sempre assim que a gente faz. Entra no cinema com o papai e a mamãe mas vai sentar lá na frente, com a turma. Depois que apaga a luz é que ele vem. E sai antes de acabar, é claro. A Glorinha veio me dizer, confidencialmente, que ele é daqueles que pegam na mão da gente quando o mocinho dá o primeiro beijo na mocinha. E o pior é que o Zé Trindade vai beijando já nos letreiros! Será que eu vou ficar com as mãos suando?

20 de junho de 1957: Hoje vou encontrar com o Nando. Agora de tarde eu e a Glorinha passamos o tempo todo comentando como é que os rapazes fazem para pegar na mão da gente. Por exemplo: o Serginho pega depois de uma semana mais ou menos. Ele estica o braço por trás da cadeira do cinema e fica esbarrando "sem querer", durante uma semana.   Dá uma aflição! Depois, vai encostando o cotovelo, desce a mão pelo outro lado e aí a gente tem que levantar a mão e pegar.

Quer dizer, quando termina a sessão a gente está com dor no braço depois de ter ficado tanto tempo curvada e com o braço balançando no ar. O Caio é tão cara de pau que pergunta assim: pintou as unhas? Deixa eu ver. E pega na mão da gente para ver a unha, disfarça, e acaba segurando firme. Sua muito, o coitado. O Dade é daquele tipo que assusta a gente. Sem mais nem menos, no meio do filme diz com voz firme, rouca e nervosa: me dá a mão! E se a garota não dá ele se levanta e vai sentar-se na última fila em sinal de protesto. O Menezes é dos mais complicados. Coloca o braço no lugar de colocar o braço e fica ali balançando a mão boba. Esbarra na perna da gente — fica todo vermelho —  derruba o pacotinho de balas, etc. Aí a gente fica com pena e acaba pegando na mão dele. Já o Medeiros pega na mão da gente com uma mão e segura um lenço com a outra. De vez em quando ele larga e dá uma limpadinha na mão. O lenço é perfumado com perfume da mãe dele. Horrível. Tem aqueles também que não sabem o que dizer e ficam com um papo bobo tipo "já viu meu anel novo"? Bem, querido, vou parar por aqui que eu ainda tenho que fazer as unhas para ir ao cinema hoje, para começar a namorar o Nando.

21 de junho de 1957: No que começou o filme, antes mesmo da apresentaçcão dos letreiros, o Zé Trindade perguntou para  uma criolinha se ela conhecia a Maria. Papo vai, papo vem, mandou o maior beijo na boca dela e o Nando veio que nem um tarado pra cima da minha mão. Até aí tudo bem. Dado o segundo beijo ele já foi encostando o joelho dele no meu. Até aí tudo bem. Não tinha nem dez minutos de filme e o Zé Trindade já tinha beijado umas quinze mulheres. Ia tudo bem até que o lanterninha veio falar não sei o que com o Nando. Ele disse que tinha que sair um pouquinho e já voltava. E não voltou mais e eu fiquei lá vendo mais 38 beijos, sozinha, torcendo um lencinho na mão, mordendo os lábios e esfregando os joelhos.