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Ana Claudia, aquela do Diário

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1975

 


Mais trechos do diário de Ana Claudia, de 14 anos:

Dia 2 de setembro — Querido Diário: parece incrível, mas faz mais de cinco dias que eu não converso com você. Como vão as coisas? Aqui em casa, além da bronca do papai — porque eu fui na sessão das dez e cheguei atrasada — tudo bem. Você nem imagina o que aconteceu, querido Diário! Terminei com o Luis Roberto. Depois eu fiquei pensando se a minha atitude tinha sido correta. Não sei. O que que você acha? Sabe o que aconteceu? Estava tudo bem, como você bem sabe. Mas outro dia, a gente estava namorando na pracinha: eu, o Luis Roberto, a Maria Alice e o Oswaldinho. De repente, querido, não é que a barriga do Luis Roberto começa a roncar e todo mundo morre de rir? E eu morri de vergonha. Dei o fora nele na hora. Será que fiz bem? Não durmo há duas noites. A minha barriga fica roncando.

Dia 26 de setembro — Meu querido: Fiz o possível para que o namoro com o Claudinho durasse mais de uma semana. Mas o esforço foi em vão. Domingo passado, veja o que aconteceu. Foi aniversário da Maria Alice, minha irmã, e teve um jantarzinho aqui em casa. O Claudinho veio. É lógico que ninguém sabia que ele era meu namorado. Só a Maria Alice. Ia tudo bem até que eu pedi para ele me passar o pão. Ah, querido Diário, você não pode imaginar a vergonha que eu fiquei quando ele me passou o pão. Assim que eu peguei o pão eu notei aquele farelozinho, aquelas casquinhas de pão na palma da mão dele. Aquilo foi definitivo. Nem conversei com ele depois do jantar. A Maria Alice até reparou, mas eu mandei um recado no dia seguinte: com farelo, definitivamente não!

Dia 14 de outubro — Meu amor: a Maria Alice acha que é enjoamento meu, mas vê se eu não tenho razão. O Maquinho queria me namorar. Desde que eu terminei com o Claudinho no mês passado — lembra? — que ele está dando em cima. Manda recado, telefona eu dizia que não estava. Conversei até com a mamãe e ela me deu todo o apoio: protestante não! Você acha que eu estou errada?

Dia 30 de outubro — Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. Imagine você, querido, que ontem o José Maria, aquele que faz Veterinária me pediu em namoro. Mandou recado pela Maria Alice. É lógico que eu aceitei. Afinal ele é mais velho até que o namorado da Maria Alice. Tem 19 anos e está no segundo ano de Veterinária. Isso quer dizer que mais alguns anos e ele se forma e a gente pode casar logo. Eu não sou dessas que ficam esperando marido, não. Eu não sou dessas que ficam pra titia cantando eternamente aquela musiquinha daquela freira: "esperando o seu príncipe encantado, seu eterno namorado, Dominique, nique, nique". Eu, não. O José Maria é o cara ideal pra mim namorar. Vou deixar de ser fútil e levar esse namoro a sério. Afinal, estou para fazer quinze anos, debutar e tudo. Já pensou, daqui mais três anos ele é um veterinário e eu a mulher dele. Os convites virão assim: Doutor José Maria do Prado e Senhora. Doutor! E a senhora serei eu! De dia ele sai para trabalhar e eu fico em casa cuidando das crianças. Ele lá no consultório e... Veterinário tem consultório? Acho que não. Pensando bem, veterinário só cuida de bicho. Mas são bichinhos simpáticos. Gatos. Gatos? Tenho horror! Isso aqui vai ficar cheio de gatos, gente! E cachorros, então? Nossa! E quando ele for cuidar dos cavalos e voltar com os sapatos todos sujos de cocô de vaca ? Deus me livre! Mas aonde que eu estou com a cabeça, meu Deus? Veterinário, nem morta! Onde já se viu? Que loucura. Pensando bem, ele tem a cara cheia de espinhas, o cabelo ele não lava nunca e vive querendo me beijar no pescoço. Cruz Credo.