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trechos do diário de Ana Claudia, de 14 anos:
Dia
2 de setembro — Querido Diário: parece incrível, mas faz mais de cinco dias
que eu não converso com você. Como vão as coisas? Aqui em casa, além da
bronca do papai — porque eu fui na sessão das dez e cheguei atrasada — tudo
bem. Você nem imagina o que aconteceu, querido Diário! Terminei com o Luis
Roberto. Depois eu fiquei pensando se a minha atitude tinha sido correta. Não
sei. O que que você acha? Sabe o que aconteceu? Estava tudo bem, como você bem
sabe. Mas outro dia, a gente estava namorando na pracinha: eu, o Luis Roberto, a
Maria Alice e o Oswaldinho. De repente, querido, não é que a barriga do Luis
Roberto começa a roncar e todo mundo morre de rir? E eu morri de vergonha. Dei
o fora nele na hora. Será que fiz bem? Não durmo há duas noites. A minha
barriga fica roncando.
Dia
26 de setembro — Meu querido: Fiz o possível para que o namoro com o
Claudinho durasse mais de uma semana. Mas o esforço foi em vão. Domingo
passado, veja o que aconteceu. Foi aniversário da Maria Alice, minha irmã, e
teve um jantarzinho aqui em casa. O Claudinho veio. É lógico que ninguém
sabia que ele era meu namorado. Só a Maria Alice. Ia tudo bem até que eu pedi
para ele me passar o pão. Ah, querido Diário, você não pode imaginar a
vergonha que eu fiquei quando ele me passou o pão. Assim que eu peguei o pão
eu notei aquele farelozinho, aquelas casquinhas de pão na palma da mão dele.
Aquilo foi definitivo. Nem conversei com ele depois do jantar. A Maria Alice até
reparou, mas eu mandei um recado no dia seguinte: com farelo, definitivamente não!
Dia
14 de outubro — Meu amor: a Maria Alice acha que é enjoamento meu, mas vê se
eu não tenho razão. O Maquinho queria me namorar. Desde que eu terminei com o
Claudinho no mês passado — lembra? — que ele está dando em cima. Manda
recado, telefona eu dizia que não estava. Conversei até com a mamãe e ela me
deu todo o apoio: protestante não! Você acha que eu estou errada?
Dia
30 de outubro — Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. Imagine você,
querido, que ontem o José Maria, aquele que faz Veterinária me pediu em
namoro. Mandou recado pela Maria Alice. É lógico que eu aceitei. Afinal ele é
mais velho até que o namorado da Maria Alice. Tem 19 anos e está no segundo
ano de Veterinária. Isso quer dizer que mais alguns anos e ele se forma e a
gente pode casar logo. Eu não sou dessas que ficam esperando marido, não. Eu não
sou dessas que ficam pra titia cantando eternamente aquela musiquinha daquela
freira: "esperando o seu príncipe encantado, seu eterno namorado,
Dominique, nique, nique". Eu, não. O José Maria é o cara ideal pra mim
namorar. Vou deixar de ser fútil e levar esse namoro a sério. Afinal, estou
para fazer quinze anos, debutar e tudo. Já pensou, daqui mais três anos ele é
um veterinário e eu a mulher dele. Os convites virão assim: Doutor José Maria
do Prado e Senhora. Doutor! E a senhora serei eu! De dia ele sai para trabalhar
e eu fico em casa cuidando das crianças. Ele lá no consultório e... Veterinário
tem consultório? Acho que não. Pensando bem, veterinário só cuida de bicho.
Mas são bichinhos simpáticos. Gatos. Gatos? Tenho horror! Isso aqui vai ficar
cheio de gatos, gente! E cachorros, então? Nossa! E quando ele for cuidar dos
cavalos e voltar com os sapatos todos sujos de cocô de vaca ? Deus me livre!
Mas aonde que eu estou com a cabeça, meu Deus? Veterinário, nem morta! Onde já
se viu? Que loucura. Pensando bem, ele tem a cara cheia de espinhas, o cabelo
ele não lava nunca e vive querendo me beijar no pescoço. Cruz Credo.