DISCUTIR: defender ou impugnar (assunto
controvertido); questionar.
RELAÇÃO: comparação entre duas
quantidades mensuráveis.
(Aurélio)
Há alguns anos eu e minha mulher (hoje
ex-) fomos convidados pelo cantor e compositor João Bosco para assistirmos ao show dele
no Teatro Municipal de Santo André. Como não sabíamos o caminho, João Bosco, que ia
com a kombi da gravadora, ofereceu-se para uma carona. Pegamos ainda o genial jornalista
policial Otávio Ribeiro (Pena Branca) e sua noiva no Hotel Cineasta no centro de São
Paulo e lá fomos nós. Pena tinha acabado de escrever um livro chamado "Barra
Pesada".
Quando chegamos, o teatro estava
superlotado, não havendo mais espaço nem no chão. O produtor do João nos arrumou
quatro cadeiras e lá ficamos nós num cantinho do palco. No centro, com foco de luz,
apenas o João, o banquinho e o violão.
Foi quando tudo se deu. Pena Branca e a
noiva começaram uma discussão no palco. Lá no cantinho, para constrangimento meu e da
Marta, enquanto João Bosco reclamava de "um torturante bandeide no calcanhar".
Da discussão partiram para um bate-boca de baixíssimo nível. Altos brados e baixos
calões. Começaram a se xingar. O que aconteceu é que as mais de mil pessoas que lotavam
o teatro começaram a desviar os olhos do centro do palco para o canto. Ali, naquele
pequeno espaço cênico, estava acontecendo um outro espetáculo. Um casal DISCUTIA A
RELAÇÃO, com o João Bosco fazendo um mero e distante fundo musical. Foi um sucesso,
para desespero meu e da Marta, meros figurantes sem fala, porém boquiabertos.
Não sei se o meu saudoso Pena Branca
continuou com a moça depois daquele dia. Sim, porque quando se começa a DISCUTIR A
RELAÇÃO é, quase sempre, porque não existe mais relação. Apenas discussão.
DISCUTIR A RELAÇÃO é um ato recente.
Antigamente, lá pelos anos sessenta, não se fazia isso. Quando o namorado ou a namorada
chegava para o outro e dizia: "Sabe, eu estive pensando"... Pronto, o ouvinte
já sabia que era o fim. Não havia mais o que discutir. Saía cada um para o seu lado
dizendo que houve (que saudades) uma "incompatibilidade de gênios". Isso
resolvia tudo.
E os nossos pais jamais discutiram a
relação. Nem mesmo a relação sexual. Dava-se uma porrada e não se falava mais
naquilo. As mulheres (infelizmente) sabiam do seu lugar ao lado do fogão, sem o fogo do
amado.
Mas o mundo girou, a lusitana rodou,
vieram os psicanalistas e as feministas. Sim, foram eles que instigaram as mulheres a
DISCUTIR A RELAÇÃO. Sim, são sempre as mulheres que começam (e acabam) as discussões
e as relações. Os terapeutas, porque colocam na cabeça da gente que devemos dizer tudo
que pensamos da pessoa amada para ela e não para o melhor amigo. E as feministas, bem, as
feministas...
Mas antes de surgir a expressão DISCUTIR
A RELAÇÃO, tivemos outros nomes para a mesma desgastante peleja. "Vamos dar um
tempo" não durou muito. Depois surgiu "nossa relação está desgastada".
Por que não "gastada"?
Hoje, modismo ou não, não há casal que
não DISCUTA A RELAÇÃO, pelo menos uma vez por semana, igualando ao número de
atividades sexuais. DISCUTE-SE A RELAÇÃO nos mais variados lugares. Alguns sombrios,
outros perigosos.
O melhor lugar para se discutir a
relação é na sala. Está-se próximo do uísque, da televisão que pode ser ligada a
qualquer momento e mesmo da porta, para uma saída furtiva e quase sempre covarde. E é
ótimo DISCUTIR A RELAÇÃO andando em círculos, com um copo não mão, um ouvido na fera
e um olho no futebol. Sim, as mulheres adoram esta atividade aos domingos. Eu tenho um
amigo que, quando quer sair sozinho com os amigos, diz: "Vou até lá em casa e dou
um jeito de DISCUTIR A RELAÇÃO com a patroa, ela fica irritada e eu tenho um motivo para
voltar aqui para o bar".
DISCUTIR A RELAÇÃO no quarto só tem
duas saídas. Tudo terminar numa belíssima a lacrimejante cena de amor (ás vezes até
com uns tapinhas carinhosos) ou a ida de um dos meliantes para o outro quarto. No quarto
é impossível se tratar deste assunto impunemente. Principalmente se os dois atletas
estiverem deitados. E nus. E se houver alguma faca por perto. Vide Robbit.
No carro é um perigo. Deveria haver
multa para esses casais que colocam em risco não apenas a vida deles, como também dos
transeuntes e demais carros. DISCUTIR A RELAÇÃO dentro do carro sempre acaba em trombada
na cara. E, quem está dirigindo, leva sempre a pior. Ou então propor um rodízio.
Segunda não discutem casais com final 1 e 2. Terça, 3 e 4. E assim por diante.
Agora, não há nada mais desagradável
do que DISCUTIR A RELAÇÃO por telefone. É um horror. Geralmente é de madrugada. Longos
silêncios... "Você está me ouvindo? Você está aí"? A gente não vê os
olhos da outra pessoa, o sarcástico sorrizinho, a pequena lágrima rolando. Sem falar na
conta do telefone.
E nos restaurante, vocês já repararam?
Sempre tem alguns casais que chegam calados, comem calados e calados saem. Um não dirige
a palavra para o outro. Ledo engano. Eles estão, em silêncio, DISCUTINDO A RELAÇÃO.
Acho uma covardia DISCUTIR A RELAÇÃO em silêncio. Eles não falam nada. Ela fica
quebrando palitos e ele rasgando o guardanapo de papel. Imundando o restaurante.
Já os mais modernos DISCUTEM A RELAÇÃO
via Internet. Ele digita um disparate para ela na Vila Madalena, o texto vai para um
satélite, dali vai para Columbus (Ohio, USA), volta ao satélite, baixa na central do Rio
de Janeiro e, finalmente, entra no computador dela em Pinheiros, a uns quinhentos metros
de distância. Depois é a vez dela fazer o mesmo. Coitado do satélite que tem que
decifrar aqueles palavrões todos. Em português, é claro!
Mas o pior não é DISCUTIR A RELAÇÃO.
O pior é pagar fortunas a um profissional, sentar-se numa poltrona ou divã e ficar ali,
durante cinqüenta minutos, por intermináveis semanas, meses a fio, anos seguidos,
repetindo timtim por timtim como foi a nossa última conversa com o ser amado, fazendo um
esforço danado para lembrar fala por fala, todos os diálogos. E o terapeuta lá, com
aquele olho de peixe morto, caído, quase bocejando, ouvindo, pela oitava vez, naquela
mesma tarde, a mesma nauseante história de amor.
Sim, porque com ele a gente não DISCUTE
A RELAÇÃO. Discutimos, no máximo, o preço. Da nossa dor.