Já dizia Chico Buarque. Os tempos eram outros e, naquele tempo,
ser outro dia era ser outro dia mesmo. Era querer o fim da ditadura militar. Era um recado
para os milicos.
Mas amanhã vai ser outro dia. Outro ano. Outro dia igual a todos
que a gente vive. Mas vai ser outro ano. Qual a diferença?
A diferença é que o primeiro de janeiro é meio parecido com o
primeiro de abril. Não é o dia da mentira, é o dia da promessa. Mais ou menos como a
segunda-feira. Ninguém, começa um regime ou deixa de fumar numa quarta-feira, por
exemplo. Segunda! Ou, os menos apressados, o ano que vem.
Mas o problema das nossas promessas é que ficam na promessa.
Você aí que está me lendo. O que é que você já não prometeu para você mesmo a
partir de amanhã? Você tem certeza que vai dar conta do recado?
Por exemplo: se você prometeu que vai arrumar emprego, cuidado.
Esta promessa não depende apenas de você. Bobagem vai ser prometer que vai cuidar melhor
da sua saúde, pois não vai ter onde se cuidar. Vai entrar na faculdade? Disputando uma
vaga com mais oitenta pessoas que também prometeram entrar? Vai sobrar gente.
Já pensou, no horário político a quantidade de promessas caras
de pau?
Besteira. Melhor não prometer nada e depender do horóscopo
mesmo.
Prometer parar de beber justamente no dia em que mais se bebe é
uma utopia. Como diz o Marcão, lá de Itapecirica da Serra, o problema de parar de beber
é que a oferta é sempre muito maior que a procura.
O Zagallllo já prometeu o penta. Não precisava: ele é o penta
em pessoa. O FHCesar vai continuar olhando para a mão espalmada tentando se lembrar o que
significava cada dedo. Eu, por exemplo, já não me lembro mais.
Só o Enéas não promete nada. PRONA deve significar PROmeto
NAda. Eu sugeriria ao Estadão que mantivesse uma coluna diária com as promessas que
todos fazem, principalmente os políticos. E deixava ali no canto. A coluna iria
aumentando dia-a-dia até ser a edição completa do jornal.
A indústria automobilística promete contratar mais operários.
Com isso, produz mais carros. Com isso, o trânsito fica pior. Os governantes prometem
fazer mais estradas e viadutos. Acaba a verba, eles tiram da saúde e da educação que,
como você sabe, não precisam de verba. Vão muito bem, obrigado.
Ninguém promete, para o ano que começa hoje à meia-noite, ser
mais feliz, ajudar as pessoas, não sonegar imposto de renda (quer com nota ou sem nota?),
fazer o bem, amar o próximo. Não, apenas se preocupam com o seu colesterol e sua
próstata. O cara promete fazer um exame de próstata no ano que vem mais vai adiando,
adiando, olhando para o dedo gordo do urologista. Vamos deixar para o ano que vem. Te
cuida, malandro!
Os gordinhos e as gordinhas são, depois dos políticos, os que
mais fazem promessas. Tentam, sofrem, desistem. Não adianta, há pesquisas, o mundo está
engordando, apesar daquelas fotos de negros famintos que os jornais insistem em colocar bem
na primeira página dos nossos principais jornais. Os jornais, por exemplo, poderiam
prometer não fazer mais isso.
Já o Papa, promete rezar pela paz. E deve rezar mesmo. Mas reza
resolve alguma coisa? Não se promete fé, esperança e caridade. Pratica-se.
Hoje à noite, antes do pilequinho se apossar de você, pense nas
promessas já fez para o ano que está começando. Será que muitas delas não poderiam
ficar para o outro ano que vem e você tentar realizar só as possíveis? Sim, porque
muita gente sabe que não vai cumprir uma porção de promessas.
Não exagere nem na bebida nem nas promessas. Pega leve. Prometa
amor, paz, sinceridade e humor, muito humor
Que tudo se realize no ano...
Falando sério, vamos levar 98 a sério. Não custa. Vamos ter
eleições. Não entre nas promessas nem repromessas deles. Prometa votar certo. Prometa
ajudar este país. Afinal é o único que temos. E é o que vamos deixar para nossos
filhos e netos. Prometa isso para eles, que já tá bão demais.