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AMANHÃ VAI SER OUTRO DIA

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o estado de s. paulo

06/11/99

 


Já dizia Chico Buarque. Os tempos eram outros e, naquele tempo, ser outro dia era ser outro dia mesmo. Era querer o fim da ditadura militar. Era um recado para os milicos.

Mas amanhã vai ser outro dia. Outro ano. Outro dia igual a todos que a gente vive. Mas vai ser outro ano. Qual a diferença?

A diferença é que o primeiro de janeiro é meio parecido com o primeiro de abril. Não é o dia da mentira, é o dia da promessa. Mais ou menos como a segunda-feira. Ninguém, começa um regime ou deixa de fumar numa quarta-feira, por exemplo. Segunda! Ou, os menos apressados, o ano que vem.

Mas o problema das nossas promessas é que ficam na promessa. Você aí que está me lendo. O que é que você já não prometeu para você mesmo a partir de amanhã? Você tem certeza que vai dar conta do recado?

Por exemplo: se você prometeu que vai arrumar emprego, cuidado. Esta promessa não depende apenas de você. Bobagem vai ser prometer que vai cuidar melhor da sua saúde, pois não vai ter onde se cuidar. Vai entrar na faculdade? Disputando uma vaga com mais oitenta pessoas que também prometeram entrar? Vai sobrar gente.

Já pensou, no horário político a quantidade de promessas caras de pau?

Besteira. Melhor não prometer nada e depender do horóscopo mesmo.

Prometer parar de beber justamente no dia em que mais se bebe é uma utopia. Como diz o Marcão, lá de Itapecirica da Serra, o problema de parar de beber é que a oferta é sempre muito maior que a procura.

O Zagallllo já prometeu o penta. Não precisava: ele é o penta em pessoa. O FHCesar vai continuar olhando para a mão espalmada tentando se lembrar o que significava cada dedo. Eu, por exemplo, já não me lembro mais.

Só o Enéas não promete nada. PRONA deve significar PROmeto NAda. Eu sugeriria ao Estadão que mantivesse uma coluna diária com as promessas que todos fazem, principalmente os políticos. E deixava ali no canto. A coluna iria aumentando dia-a-dia até ser a edição completa do jornal.

A indústria automobilística promete contratar mais operários. Com isso, produz mais carros. Com isso, o trânsito fica pior. Os governantes prometem fazer mais estradas e viadutos. Acaba a verba, eles tiram da saúde e da educação que, como você sabe, não precisam de verba. Vão muito bem, obrigado.

Ninguém promete, para o ano que começa hoje à meia-noite, ser mais feliz, ajudar as pessoas, não sonegar imposto de renda (quer com nota ou sem nota?), fazer o bem, amar o próximo. Não, apenas se preocupam com o seu colesterol e sua próstata. O cara promete fazer um exame de próstata no ano que vem mais vai adiando, adiando, olhando para o dedo gordo do urologista. Vamos deixar para o ano que vem. Te cuida, malandro!

Os gordinhos e as gordinhas são, depois dos políticos, os que mais fazem promessas. Tentam, sofrem, desistem. Não adianta, há pesquisas, o mundo está engordando, apesar daquelas fotos de negros famintos que os jornais insistem em colocar bem na primeira página dos nossos principais jornais. Os jornais, por exemplo, poderiam prometer não fazer mais isso.

Já o Papa, promete rezar pela paz. E deve rezar mesmo. Mas reza resolve alguma coisa? Não se promete fé, esperança e caridade. Pratica-se.

Hoje à noite, antes do pilequinho se apossar de você, pense nas promessas já fez para o ano que está começando. Será que muitas delas não poderiam ficar para o outro ano que vem e você tentar realizar só as possíveis? Sim, porque muita gente sabe que não vai cumprir uma porção de promessas.

Não exagere nem na bebida nem nas promessas. Pega leve. Prometa amor, paz, sinceridade e humor, muito humor

“Que tudo se realize no ano”...

Falando sério, vamos levar 98 a sério. Não custa. Vamos ter eleições. Não entre nas promessas nem repromessas deles. Prometa votar certo. Prometa ajudar este país. Afinal é o único que temos. E é o que vamos deixar para nossos filhos e netos. Prometa isso para eles, que já tá bão demais.