Dona Izabel, pernambucana, é empregada doméstica, tem
38 anos, um marido e quatro filhos. Trabalhava num edifício chamado New
Orleans e ganhava um salário mínimo por mês, o que já é um roubo de quem
paga isso para uma senhora ficar na sua casa o dia inteiro, lavando cueca
suja, passando calcinhas rendadas e cozinhando comidas que ela nunca vai
comer.
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Foi quando resolveu levar para a sua casa uma cebola,
uma cabeça de alho, um tablete de caldo de carne e uma lata de ervilhas,
sem pedir permissão aos patrões, ambos publicitários, aqueles que vivem
vendendo alhos por bugalhos.
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Ia saindo calmamente quando foi interceptado pelo
patrão e pelo zeloso zelador que estavam de tocaia na garagem à espera da
criminosa. Tente imaginar os dois na garagem escondidos da própria
empregada, falando baixinho, planejando o ataque. Sendo que, para tanto
empenho, o patrão voltou mais cedo do serviço. Maquiavel puro. Anticrime
premeditado. Não bastasse a covarde tocaia, chamaram uma viatura da
polícia. Não sei se teve algema. Mas foram para a delegacia. O delegado
levou a coisa a sério, prendeu a elementa e justificou com uma frase muito
bonita:
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- Ela vai responder por furto, sim. O flagrante está
perfeito e o que ela praticou não é um crime famélico (sic). Este só se
caracteriza quando a pessoa é miserável e não tem emprego.
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Portanto, para a autoridade de plantão, quem tem
emprego de um salário mínimo não é miserável nem famélico; é brasileiro
como todo mundo. Já para a cela. Lá, dona Izabel dividiu sua noite com
traficantes, ladras e estelionatárias. Boa coisa não deve ter aprendido.
No dia seguinte, o juiz corregedor lhe deu liberdade provisória. Voltou
para casa e vai responder ao processo em liberdade. Como se essa mulher
algum dia vai conseguir paz e liberdade.
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Eu perguntaria aos seus patrões se eles nunca
roubaram quatro reais. Por exemplo: quando eles compraram um apartamento,
ele e o vendedor declararam o preço pago, ou mais baixo, por conta do
imposto de renda? Fiquem tranqüilos. Todos nós fazemos isso. É normal...
Só aí já haveria um roubo de alguns milhares de quatro reais dos cofres
públicos e do nosso bolso. Ou, se o apartamento for alugado, no fim do ano
ao fazerem a declaração de IR, combinaram alguma coisa com o proprietário
para ambos declararem abaixo e, portanto, roubarem? Também é normal, nada
pessoal contra vocês.
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Quando vamos ao médico ou ao dentista, pagamos com ou
sem nota, para usurparmos mais um pouco de nós mesmos? Quando o
restaurante erra na conta para menos, alguém reclama? Mesmo que seja
apenas 4 reais?
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Não conheço o casal e posso estar fazendo mau juízo
dos dois. Mas acontece que todos nós cometemos esses pequenos pecados do
furto de nós mesmos e da nação. Meu caro casal, sou como vocês e como
todos os brasileiros. Também roubamos. Só que ninguém vai dedurar vocês,
ou eu ou o nosso leitor. Ninguém vai ficar escondido na penumbra da
garagem por causa de quatro reais.
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O Brasil ganharia muito mais com vocês dois (e nós
todos) se fossem denunciar senador que rouba para montar time de futebol e
não para dar um jantar para quatro filhos. Ou dirigentes que têm clube de
futebol para roubar até mesmo do associado.
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Por que vocês não vão ficar de tocaia na garagem da
maioria dos nossos políticos? Ou na garagem do Edir Macedo que sempre
chega com sacos cheios de dinheiro alheio em notas miúdas? Por que vocês
não vão ficar na porta dos estádios contando o número de pagantes de um
jogo de futebol? Posso ir junto com vocês.
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Vocês, eu e quem está me lendo agora, somos muito
mais ladrões do que a dona Izabel. Ela, pelo menos, rouba para comer. E
nós comemos para roubar. Só que nunca nos tocaiaram num cair de tarde, nem
chamaram a humilhante viatura policial e nunca dormimos fora do conforto
de colchões importados em prédio de nome igualmente importado.
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Em tempo: a cebola não era importada, como os nossos
carros e nossos sonhos de consumo, nossa mania de querermos ser Primeiro
Mundo.
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Acho muito difícil a dona Izabel voltar a trabalhar
para o casal de publicitários (ou em qualquer outra residência) mas, se
isso acontecer, por favor, dêem a ela um salário mais digno. Porque lá em
New Orleans, nos Estados Unidos, quem ganha isso por mês, apesar de ouvir
boa música, costuma roubar alhos e outros bugalhos. Normal.
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É o tal do maléfico famélico.
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