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Alhos por bugalhos

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o estado de s. paulo

15/05/2002

 


Dona Izabel, pernambucana, é empregada doméstica, tem 38 anos, um marido e quatro filhos. Trabalhava num edifício chamado New Orleans e ganhava um salário mínimo por mês, o que já é um roubo de quem paga isso para uma senhora ficar na sua casa o dia inteiro, lavando cueca suja, passando calcinhas rendadas e cozinhando comidas que ela nunca vai comer.

Foi quando resolveu levar para a sua casa uma cebola, uma cabeça de alho, um tablete de caldo de carne e uma lata de ervilhas, sem pedir permissão aos patrões, ambos publicitários, aqueles que vivem vendendo alhos por bugalhos.

Ia saindo calmamente quando foi interceptado pelo patrão e pelo zeloso zelador que estavam de tocaia na garagem à espera da criminosa. Tente imaginar os dois na garagem escondidos da própria empregada, falando baixinho, planejando o ataque. Sendo que, para tanto empenho, o patrão voltou mais cedo do serviço. Maquiavel puro. Anticrime premeditado. Não bastasse a covarde tocaia, chamaram uma viatura da polícia. Não sei se teve algema. Mas foram para a delegacia. O delegado levou a coisa a sério, prendeu a elementa e justificou com uma frase muito bonita:

- Ela vai responder por furto, sim. O flagrante está perfeito e o que ela praticou não é um crime famélico (sic). Este só se caracteriza quando a pessoa é miserável e não tem emprego.

Portanto, para a autoridade de plantão, quem tem emprego de um salário mínimo não é miserável nem famélico; é brasileiro como todo mundo. Já para a cela. Lá, dona Izabel dividiu sua noite com traficantes, ladras e estelionatárias. Boa coisa não deve ter aprendido. No dia seguinte, o juiz corregedor lhe deu liberdade provisória. Voltou para casa e vai responder ao processo em liberdade. Como se essa mulher algum dia vai conseguir paz e liberdade.

Eu perguntaria aos seus patrões se eles nunca roubaram quatro reais. Por exemplo: quando eles compraram um apartamento, ele e o vendedor declararam o preço pago, ou mais baixo, por conta do imposto de renda? Fiquem tranqüilos. Todos nós fazemos isso. É normal... Só aí já haveria um roubo de alguns milhares de quatro reais dos cofres públicos e do nosso bolso. Ou, se o apartamento for alugado, no fim do ano ao fazerem a declaração de IR, combinaram alguma coisa com o proprietário para ambos declararem abaixo e, portanto, roubarem? Também é normal, nada pessoal contra vocês.

Quando vamos ao médico ou ao dentista, pagamos com ou sem nota, para usurparmos mais um pouco de nós mesmos? Quando o restaurante erra na conta para menos, alguém reclama? Mesmo que seja apenas 4 reais?

Não conheço o casal e posso estar fazendo mau juízo dos dois. Mas acontece que todos nós cometemos esses pequenos pecados do furto de nós mesmos e da nação. Meu caro casal, sou como vocês e como todos os brasileiros. Também roubamos. Só que ninguém vai dedurar vocês, ou eu ou o nosso leitor. Ninguém vai ficar escondido na penumbra da garagem por causa de quatro reais.

O Brasil ganharia muito mais com vocês dois (e nós todos) se fossem denunciar senador que rouba para montar time de futebol e não para dar um jantar para quatro filhos. Ou dirigentes que têm clube de futebol para roubar até mesmo do associado.

Por que vocês não vão ficar de tocaia na garagem da maioria dos nossos políticos? Ou na garagem do Edir Macedo que sempre chega com sacos cheios de dinheiro alheio em notas miúdas? Por que vocês não vão ficar na porta dos estádios contando o número de pagantes de um jogo de futebol? Posso ir junto com vocês.

Vocês, eu e quem está me lendo agora, somos muito mais ladrões do que a dona Izabel. Ela, pelo menos, rouba para comer. E nós comemos para roubar. Só que nunca nos tocaiaram num cair de tarde, nem chamaram a humilhante viatura policial e nunca dormimos fora do conforto de colchões importados em prédio de nome igualmente importado.

Em tempo: a cebola não era importada, como os nossos carros e nossos sonhos de consumo, nossa mania de querermos ser Primeiro Mundo.

Acho muito difícil a dona Izabel voltar a trabalhar para o casal de publicitários (ou em qualquer outra residência) mas, se isso acontecer, por favor, dêem a ela um salário mais digno. Porque lá em New Orleans, nos Estados Unidos, quem ganha isso por mês, apesar de ouvir boa música, costuma roubar alhos e outros bugalhos. Normal.

É o tal do maléfico famélico.