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ALGUÉM OUVIU O GRITO DO IPIRANGA?

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o estado de s. paulo

08/09/93

 


VOCÊ CONHECE alguém que more no Ipiranga? Nem eu. Campos de Carvalho, escritor mineiro e esporádico, escreveu uma obra-prima chamada O Púcaro Búlgaro, lá pelos 60. A história começa com o protagonista visitando um museu arqueológico na Filadélfia e, de repente, depara com um púcaro búlgaro entre as expostas antiguidades. Fica excitadíssimo: primeiro, porque achava que não existisse nenhum púcaro no mundo e, em segundo lugar, e foi isso que o patetizou, um púcaro além de tudo búlgaro. Búlgaro! E ele tinha certeza, que a Bulgária não existia. Ele não conhecia nenhum búlgaro, ninguém que morasse na Bulgária, ninguém que nunca tivesse, ao menos, visitado tão esdrúxulo país. Nem eu. E você. conhece a Bulgária?

Imediatamente largou a sua mulher olhando outras curiosidades, pegou o primeiro avião para o Rio de Janeiro e colocou um anúncio nos principais jornais do Brasil, procurando voluntários para uma picaresca e pitoresca excursão pelo mundo, a fim de descobrir a Bulgária. E os búlgaros. E um púcaro, quiçá. O livro é maravilhoso. Uma pena que a Civilização Brasileira nunca mais o tenha reeditado. E por falar nisso, onde anda o Waltinho Campos de Carvalho? Ainda procurando a Bulgária? Ou o Ipiranga?

Explico: o bairro do Ipiranga tem este mistério para mim. Moro há 27 anos em São Paulo e nunca conheci ninguém que morou, mora ou pensa em ir morar no Ipiranga. E você?

Comecei a imaginar que o bairro não existe. Nunca existiu. Deve ser apenas uma citação, um verbete a mais nos livros de História do Brasil. Andei pela cidade a perguntar se alguém conhecia alguém que morava no Ipiranga. Ninguém. O tal do riacho do Ipiranga: alguém já viu ele? Nem ao menos a margenzinha plácida? Alguém já nadou nele? Já pescou uma traíra lá? E o retumbante grito do Dom Pedro, às tais das margens plácidas? Alguém ouviu? Foi gravado? Filmado ou mesmo fotografado? Tem aquela tela do Pedro Américo. Mas este Pedro Américo, será que existiu mesmo? Será que o grito não foi dado na Vila Carrão, ou no Parque Dom Pedro? Será que foi mesmo um grito ou, como dizem as más línguas, uma evasão intestinal do senhor Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (coisa de viado)?

Durante um tempo pensei—como Campos de Carvalho—em fazer uma excursão para descobrir, finalmente, o Ipiranga. Lembrei-me que nos anos 50 tinha um time de futebol, o Clube Atlético Ipiranga. Quando o meu Linense subiu para a especial, o primeiro jogo, lá em Lins, foi com o Ipiranga (acho que com Y). Põe cinco a um para o Linense. Depois o Clube Ipiranga também sumiu. Pelo menos das lides futebolíticas.

 

Estava já pensando em colocar um anúncio no jornal, quando percebi que a Avenida do Estado, suposta via de acesso ao bairro, está interditada há mais de dez anos. Será que eles não querem ser descobertos?

Foi então que comecei a tomar notas de tudo o que dizia respeito ao Ipiranga. Ou melhor, que não dizia. Por exemplo, no programa Aqui Agora, nunca vi aquele repórter dedo-duro, que corre atrás de traficante chinfrim, ofegar-se pelas ruas ipiranguistas. Ou seria ipiranguenses? Jamais saberemos.

Nunca li em nenhum jornal nenhum crime no bairro do Ipiranga. Claro, o bairro não existe. Mas há um local onde foi ou onde seria o bairro. É aquele lugar onde você se perde quando entra em São Paulo pela Anchieta. Se nem o Anchieta, grande poeta e peregrino, conseguia achar o Ipiranga, imagina eu com os meus colaboradores escolhidos a dedo num anúncio de jornal...

De repente, tudo mudou na minha cabeça. Foi quando comecei a procurar os classificados dos jornais para procurar um apartamento para morar. Claro que não há nenhum apartamento para alugar no Ipiranga. Nem para vender. Pelo menos não anunciam. Então comecei a mudar o meu ponto de vista sobre o bairro.

Se não tem bandidos, se não tem assaltos, se não tem crimes (a Rua Cuba, por exemplo, fica bem longe de lá), se não tem apartamentos para alugar, deve significar alguma coisa. Pelo menos uma: quem mora lá não quer sair de lá. Lá não tem bandidos, não tem assaltos. Deve ser um bom bairro para morar. Um excelente bairro, sob todos os pontos de vista. Felizmente não tem mais as margens plácidas, que hoje deveriam estar poluidíssimas como as do Tietê. Não tem gritos retumbantes pela noite, não deve ter esquinas com meninos de rua a nos doer o coração.

 Pensando bem, o bairro do Ipiranga deve ser o melhor