As eleições, para mim, perderam a
graça. Tudo por culpa do modernismo eletrônico e da televisão.
Em primeiro lugar, não se fazem mais
comícios como antigamente. Em praça pública. No palanque da praça central. Na minha
cidade, tinha um palanque que era fixo. Ali ficavam as autoridades nos desfiles cívicos e
militares. Ali, cantores do rádio vinham encantar a gente.
E, nas eleições, era dali que a gente
via o Adhemar de Barros gritar: "Enquanto eu estou aqui, a minha mulher está na zona
de Jaú". Ou o Jânio que passava pela cidade no último vagão da Noroeste do
Brasil, tirava um sanduíche do bolso e mandava bala.
Como gritavam os políticos d'antanho.
Tinha cidade onde o alto falante nem sempre funcionava. Chiava. O jeito era ir no grito,
no peito e na raça. Ainda hoje em dia, vendo os velhos políticos, noto que eles não
perceberam que os microfones funcionam e continuam a gritar como se estivessem na década
de 40 ou 50. Mesmo na televisão, eles agem como se estivessem nas públicas praças.
Agora tem o horário político. Devo
confessar que adoro. Principalmente os candidatos a vereadores. De tão hilários,
deveriam ter mais espaço na telinha. Um deles, lá de Sorocaba, travesti, dizia:
"Não preciso do seu voto. Minha clientela me elege". E dava o ponto na rua tal,
esquina com tal. Adoraria ver a bicha num palanque rodando a baiana e apontando os seus
clientes na platéia.
O horário político, foi feito para eles
entrarem nas nossas casas. Mas não entram, só espiam.
Depois inventaram as carretas, as
passeatas, os panelaços e outras palhaçadas. Você vê o seu candidato passando
correndo pela sua rua. A impressão é que eles estão correndo para outro bairro.
Depois, tem a mala direta. Não sei onde
esses caras arrumam o endereço da gente. Mas todo dia chegava de dois a três envelopes,
cheios de santinhos. Pelo menos é bom para rascunho. E os erros de português, que
maravilha. Tinha um que começava assim: "fazem oito anos que"... Ou seja, não
dá para ler até o fim.
Mas o mundo mudou e a lusitana continuou
a girar. Tudo bem, sejamos modernos. Mas, depois chega a apuração. Era aqui que eu
queria chegar.
Com essa coisa de querer fazer apuração
de primeiro mundo, perdemos a graça do nosso maravilhoso terceiro mundo. Urna
eletrônica. Todo mundo aplaudiu e é mesmo gostoso apertar aqueles botõezinhos e
pronto. Foi um sucesso. Monteiro Lobato, Elis Regina, Machado de Assis e Grande Otelo
foram exumados, sem autorização das famílias e voltaram às nossas telas.
Mas o mais grave de tudo, foi a rapidez
da apuração. Perdeu a graça, gente. Tinha coisa melhor do que você ficar em casa
diante do rádio ouvindo aquelas intermináveis apurações, com papelzinho e lápis na
mão, anotando tudo? Dias e mais dias, noites, madrugas, torcendo, anotando, como se fosse
uma classificação do brasileiro de futebol. Fulano crescendo, beltrano caindo nas
apurações da zona leste, por exemplo.
Nas suas casas e diretórios, os
candidatos também sofrendo, torcendo, fazendo contas impossíveis. Durava mais de uma
semana o lúdico sofrimento. Era bom demais. Agora, não. Quatro ou cinco horas depois,
já se sabe quem ganhou. Qual é a graça? Onde fica o espírito de competição, o
espírito esportivo? Antigamente uma eleição era decidida em dias, semanas. A gente
sofria, torcia, apostava. Agora ficou uma caca.
Tinha subornos, sacanagens, votos
preenchidos pelos próprios mesários. Protestos, processos, denúncias. Agora, não.
Está tudo certinho. Parece com os Estados Unidos. É isso que eles queriam. Um dia, por
engano, ainda vamos eleger o Clinton. Ou não será por engano?
Sei que, dentro de alguns anos, não
vamos nem precisar ir até ao colégio para votar. Vamos votar de casa mesmo, através da
internet. Mas quer coisa mais gostoso do que sair de casa, entrar pra votar, pegar uma
filinha, encontrar amigos, tomar uma cervejinha em casa depois? Será que vai ter boca de
urna dentro da casa da gente? Os lixeiros vão adorar, é claro.
É por essas e outras que o FH se alia ao
Maluf, seu velho inimigo na época da ditadura. Que vergonha, meu Deus. Não temos mais
eleições, nem apuração e nem Partidos mais no Brasil. Os Partidos estão
irremediavelmente partidos. Tudo é luta pelo poder. Aliás, a esquerda velha sempre
gostou de um cargo. E, quando consegue, não quer largar.
Pior que uma eleição se primeiro mundo,
só mesmo uma reeleição de terceiro mundo. O Fujimore entende dessas coisas.
Tecnicamente pra frente. Politicamente
pra trás.
Dá pra rir? Dá.
A eleição brasileira acaba de entrar na
menopausa.