Página anterior

AGENDA PARA AGENDAR O QUÊ?

Próxima crônica

o estado de s. paulo

 

 


Como sempre acontece nos finais de ano, ganhei uma porção de agendas. Cinco, para ser mais exato. E estou pensando seriamente em devolvê-las.
Eu explico. São todas lindas, bem acabadas, uma com as tiras da Família Brasil do inesgotável Luís Fernando Veríssimo, outra com poemetos do outro gaúcho, o Mário Quintana. Ganhei até uma com capa de couro, letras douradas, etc.

Mas devo explicações para a Leila Ventura (que me deu a do Estadão), ao Lenilson e ao Heitor Paixão (da Editora Globo) e à minha querida e criativa Maria Ignês, da revista Criativa. Obrigado a vocês todos pelo carinho e pela lembrança.

Não posso, de maneira nenhuma, menosprezá-los com estas mal traçadas linhas. Afinal, são vocês que me dão o dinheirinho no final do mês.
Mas não vou usar as agendas. E quero deixar claro que não é nada pessoal contra nenhum de vocês, companheiros de idas e vindas (felizmente mais idas do que vindas). E não vou usar porque elas não foram feitas para uma pessoa como eu.

Em todas elas, sem exceção, temos os horários marcados entre 8 da manhã e 6 da tarde. Devo confessar que jamais marcaria um compromisso pela manhã porque, como vocês sabem, é a hora do melhor sono. E sonhos. Meu dia (e de várias e várias pessoas) começa depois das 3 da tarde e se alastra noite adentro, como agora, que estou escrevendo esta crônica. Como marcar numa agenda que, de cara, acha que a vida termina às 6 da tarde?

Onde eu vou marcar que tenho que levar a minha filha para uma festa às 11 da noite e buscar o meu filho em outra às 3 e meia? Onde vou agendar as minhas peças de teatro, sempre depois das 9? Em que espaço marcar os jantares de trabalho ou não no Spot, no Balcão ou no Nabuco? Como ter certeza que é naquele dia, às 10 da noite, que eu marquei com o Mateus na Mercearia São Pedro?

Mas o disparate não termina aí, gente. Sábado, por exemplo. Para os fazedores de agenda, o sábado termina ao meio-dia. E todo mundo sabe que o sábado, para qualquer mortal, começa bem depois disso. Onde vou agendar a feijoada com o Chico Milan, o Walminho, o Tena e a Annette? E a passada depois na casa do Fernando Morais para um uisquinho ao cair da tarde? E o futebol às 5 da tarde? E o cineminha de noite?

Vocês pensam que o absurdo termina aí? Não, senhora. imagine a senhora que não tem domingo na agenda. Economia de papel? Como eu vou "guardar os domingos e dias santos" sem uma agenda?

O que os fazedores de agenda têm que saber é que, de noite, sábado e domingo, tem muito mais coisa para se fazer do que de segunda a sexta às 6 da tarde.

Estou escrevendo isto aqui na segunda de noite. Depois tenho mais dois compromissos importantes que eu tenho que guardar na memória. Ir ao aniversário do Nabuco onde fui convidado para ser júri do Juca Pato e ir à casa da minha irmã Rita para o sorteio dos amigos secretos da família Prata. Não posso esquecer. Devo escrever num papelzinho e juntar a tantos outros que tenho no bolso?

O que seria do Fernando Henrique se a agenda dele terminasse às 6 da tarde? Já pensaram, a pasta cor-de-rosa pronta para ser aberta, chega um assessor e diz: "Presidente, são 6 horas"! E fecham a agenda. E um astronauta, ficaria perdido no espaço entre meio-dia de sábado e 8 da manhã de segunda? E os times de futebol, não jogariam mais de noite, nem sábado e nem domingo? Pelas agendas que recebi, não dá nem para marcar a santa missa de domingo Nem o churrasco.

Como programar para a madrugada para se assistir àqueles hilários programas da IURD, como é chamada em Portugal a Igreja do Edir? E fazer sexo, tem que ser entre 8 e 6 da tarde? Ou só no sábado de manhã?

Meus queridos Leila, Lenilson, Paixão e Maria Ignês, no próximo ano, espero que ainda estejamos trabalhando juntos. Um feliz Natal para vocês todos e um bom Ano Novo. Mas não marquem na agenda, pois as duas festas serão no domingo à noite e deverão entrar pela madrugada afora. Não vão se esquecer, hein?