Faço as
minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A
mocinha:
- Pode deixar
que a máquina faz isso!
Fico uns
segundos atabalhoado, olho para o cheque.
- Faço questão
de eu mesmo preencher.
E preenchi.
A cena é
corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando
o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento,
é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.
Você já
notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da
faculdade que não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas
e cartões para tal uso.
E olha que
aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário
a gente tinha aula de Linguagem. Tinha o Caderno de Linguagem que todos eram
obrigados a comprar. A linha era subdivivida em duas partes, sendo a debaixo
menorzinha para caberem as letras baixas, como o ‘‘a e o “o”,
por exemplo. E quando pintava um “l” ou um “t“, tinha que ir até lá em
cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual a da professora, que era
perfeita, por sinal.
Com o passar
dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo
entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e
a letra de forma foi se deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina
de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o
mesmo?
Tenho certeza
que, no futuro próximo, os alunos vão levar os botebooks para a sala de aula.
A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já
grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós
escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma
maquininha para dar suas tortas receitas?
Fico triste ao
constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Um parte
trabalhada duramente durante anos e anos.
O correio
elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo
letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquele letra,
gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras
manuais para os motivos apaixonantes?
Chegará o
momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos
um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um
número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível
da impressão digital?
Será que um
dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas para
os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do
fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será
escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai
diretamente para o Detran.
Nos países
mais metidos a besta (também conhecidos como primeiro mundo), os garçons já
pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido
para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.
Claro que o
jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que
a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo secreto com aqueles
pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda
alguém com boa letra para tanto?
Como as secretárias
avisarão o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos,
é claro.
Agendas eletrônicas
já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.
E conta? Alguém
ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada,
com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já
se admitem tais maquininhas.
Listinha de
pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do
padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado
da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em
algarismos romanos, sei lá por que.
E bilhetinho
que agora chama-se e-mail?