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A volta das férias

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o estado de s. paulo

15/01/2003

 


Hoje em dia as escolas evoluíram. Para pior, é claro. E não sei se quando a garotada volta das férias a professora dá como tema de redação “Como foram as minhas férias”. No meu tempo (bons tempos, quando eu tinha quatro meses de férias) eu devo ter feito umas dez (ou mais) redações sobre o supracitado (gostou?), cativante e inútil assunto.

E para mim era um problema porque todas as minhas férias eram iguais. Ia com a família inteira (éramos sete) para Uberaba, no Triângulo Mineiro. Via os mesmos avós, as mesmas tias (Eponina, Aspásia, Raimunda, Floriscena, Cândinha, Abadia e Astréia, acredite se quiser), os mesmos primos e primas. Era bom, mas era sempre igual. Portanto, a cada redação sobre as minhas férias eu tinha que ser criativo para não redundar (estou usando cada palavra hoje!).

Pois. E não é que nestas férias eu fui de novo para Uberaba? Só que tudo mudou e se eu estivesse lá no Grupo Escolar Dom Henrique Gelain (escola pública), em Lins, surpreenderia minha professoras dona Gessy, dona Clara, dona Ivone e dona Augusta com muitas novidades. Eponina, Aspásia, Raimunda, Floriscena, Cândinha, Abadia e respectivos maridos morreram, algumas há mais de 40 anos. Tia Astréia está firme, mas não estava na festa.

Sim, foi uma festa que fez com que os Prata, agora com cinco gerações, voltasse para a cidade. Meu tio Padre (todo mineiro tem um tio padre) fez oitenta anos. Desta vez não teve jogo de botão e nem sermão. Padre não usa mais batina (um absurdo!) e bebe uísque. E os primos, meu Deus! todos avós. Primas que eu não via desde a clandestinidade dos anos 70, todas lá, trabalhando com carteira assinada e tudo.

Mas a impressão, num encontro deste tipo, é que ninguém envelheceu. Tudo bem que as barrigas ficaram proeminentes (desculpe!) e as melenas (não disse?) cãs (esta você vai ter que ir ao dicionário: "As cãs lhe cobriam a cabeça como uma ligeira pasta de algodão."), como diria José de Alencar, no livro O Tronco de Ipê, que eu lia naquelas férias.

Fiquei por ali conhecendo primas e primos com menos de quarenta que eu não saberia ser um Prata se cruzasse na rua, como se estivesse andando pelas ruelas de Rimini pelas mãos de Fellini, atrás de alguma Gradisca, ao som de Nino Rota, em Amarcord (que é uma corruptela (eta!) de “eu me recordo”. Rodava pelo salão como se estivesse assistindo Cine Paradiso. Cheguei a ouvir o velho projetista dizendo para o garoto seu amigo que partia para a cidade grande: “Quando você voltar para cá, daqui a um ano, vai dizer “Nossa, como tudo mudou”. Mas quando você voltar daqui a quarenta anos, vai dizer: “Nossa, tudo continua igual”.

Sim, tudo continua igual lá em Uberaba, fora os mortos, incluindo aí o doutor Prata, meu pai. Poderia voltar ao Grupo Escolar e escrever a mesma redação dos anos cinqüenta, sem tirar nem pôr. Senti saudades do meu pai, das tias que morreram. No caso no pai, depois de sua morte, ainda nasceu mais um neto. O Leo, do Leonel. Para cada Prata morto uns cinco pratinha na praça. Senti saudades do jogo de botão na mesa de refeição de minha avó Quita, excelente estádio com área demarcada e tudo a que tínhamos direito. Senti saudades de mim, das minhas redações escolares, dos colegas de classe.

Antes de vir embora, visitei o túmulo do meu pai. Tá lá no cemitério. De férias. Ou seria em férias? Esta questão eu já discutia no curso primário. De ou em?

Mas a maior saudade mesmo foi da nossa inocência, da nossa vontade de mudar o Brasil. Vários que estavam ali foram torturados, maridos mortos, aquelas coisas tão normais dos anos de chumbo grosso militar.

Mas parece que a paz e a harmonia voltou à minha família toda sob a bênção do tio Padre. Na televisão o Lula tomava posse dizendo ao Fernando Henrique: “Você tem um amigo aqui dentro”.

Enfim, nestas férias, minhas caras dona Gessy, dona Clara, dona Ivone e dona Augusta, eu chorei muito. E rejuvenesci. E voltei a fazer redação escolar que é o que eu mais gosto de fazer na vida.

E você voltou a me ler. Deus te abençoe, leitora. Deus te ilumine, leitor. Nada mudou em Rimini nem nas telas do Cine Paradiso. A música continua.