Hoje em dia as escolas
evoluíram. Para pior, é claro. E não sei se quando a garotada volta das
férias a professora dá como tema de redação “Como foram as minhas férias”.
No meu tempo (bons tempos, quando eu tinha quatro meses de férias) eu devo
ter feito umas dez (ou mais) redações sobre o supracitado (gostou?),
cativante e inútil assunto.
E para mim era um problema
porque todas as minhas férias eram iguais. Ia com a família inteira (éramos
sete) para Uberaba, no Triângulo Mineiro. Via os mesmos avós, as mesmas tias
(Eponina, Aspásia, Raimunda, Floriscena, Cândinha, Abadia e Astréia,
acredite se quiser), os mesmos primos e primas. Era bom, mas era sempre
igual. Portanto, a cada redação sobre as minhas férias eu tinha que ser
criativo para não redundar (estou usando cada palavra hoje!).
Pois. E não é que nestas
férias eu fui de novo para Uberaba? Só que tudo mudou e se eu estivesse lá
no Grupo Escolar Dom Henrique Gelain (escola pública), em Lins,
surpreenderia minha professoras dona Gessy, dona Clara, dona Ivone e dona
Augusta com muitas novidades. Eponina, Aspásia, Raimunda, Floriscena,
Cândinha, Abadia e respectivos maridos morreram, algumas há mais de 40 anos.
Tia Astréia está firme, mas não estava na festa.
Sim, foi uma festa que fez
com que os Prata, agora com cinco gerações, voltasse para a cidade. Meu tio
Padre (todo mineiro tem um tio padre) fez oitenta anos. Desta vez não teve
jogo de botão e nem sermão. Padre não usa mais batina (um absurdo!) e bebe
uísque. E os primos, meu Deus! todos avós. Primas que eu não via desde a
clandestinidade dos anos 70, todas lá, trabalhando com carteira assinada e
tudo.
Mas a impressão, num
encontro deste tipo, é que ninguém envelheceu. Tudo bem que as barrigas
ficaram proeminentes (desculpe!) e as melenas (não disse?) cãs (esta você
vai ter que ir ao dicionário: "As cãs lhe cobriam a cabeça como uma ligeira
pasta de algodão."), como diria José de Alencar, no livro O Tronco de Ipê,
que eu lia naquelas férias.
Fiquei por ali conhecendo
primas e primos com menos de quarenta que eu não saberia ser um Prata se
cruzasse na rua, como se estivesse andando pelas ruelas de Rimini pelas mãos
de Fellini, atrás de alguma Gradisca, ao som de Nino Rota, em Amarcord (que
é uma corruptela (eta!) de “eu me recordo”. Rodava pelo salão como se
estivesse assistindo Cine Paradiso. Cheguei a ouvir o velho projetista
dizendo para o garoto seu amigo que partia para a cidade grande: “Quando
você voltar para cá, daqui a um ano, vai dizer “Nossa, como tudo mudou”. Mas
quando você voltar daqui a quarenta anos, vai dizer: “Nossa, tudo continua
igual”.
Sim, tudo continua igual lá
em Uberaba, fora os mortos, incluindo aí o doutor Prata, meu pai. Poderia
voltar ao Grupo Escolar e escrever a mesma redação dos anos cinqüenta, sem
tirar nem pôr. Senti saudades do meu pai, das tias que morreram. No caso no
pai, depois de sua morte, ainda nasceu mais um neto. O Leo, do Leonel. Para
cada Prata morto uns cinco pratinha na praça. Senti saudades do jogo de
botão na mesa de refeição de minha avó Quita, excelente estádio com área
demarcada e tudo a que tínhamos direito. Senti saudades de mim, das minhas
redações escolares, dos colegas de classe.
Antes de vir embora,
visitei o túmulo do meu pai. Tá lá no cemitério. De férias. Ou seria em
férias? Esta questão eu já discutia no curso primário. De ou em?
Mas a maior saudade mesmo
foi da nossa inocência, da nossa vontade de mudar o Brasil. Vários que
estavam ali foram torturados, maridos mortos, aquelas coisas tão normais dos
anos de chumbo grosso militar.
Mas parece que a paz e a
harmonia voltou à minha família toda sob a bênção do tio Padre. Na televisão
o Lula tomava posse dizendo ao Fernando Henrique: “Você tem um amigo aqui
dentro”.
Enfim, nestas férias,
minhas caras dona Gessy, dona Clara, dona Ivone e dona Augusta, eu chorei
muito. E rejuvenesci. E voltei a fazer redação escolar que é o que eu mais
gosto de fazer na vida.
E você voltou a me ler.
Deus te abençoe, leitora. Deus te ilumine, leitor. Nada mudou em Rimini nem
nas telas do Cine Paradiso. A música continua.