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A VINGANÇA DO PEQUENO TOPETE

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o estado de s. paulo

16.3.94

 


ERA UMA VEZ um menino que nasceu em Juiz de Fora, na primeira metade deste século. Era um garotinho normal, educado, simpático e, o mais importante, trabalhador. Na sua cabeça havia um detalhe anatômico que lhe valeu o simpático apelido de Topete.

Topete era de uma família humilde e, desde pequeno, trabalhava para ajudar em casa. Seu tio, o seu Franco, tinha uma pharmácia. Alguns dizem que tinha duas. E foi lá que o magricela Topete arrumou o seu primeiro emprego. Ele fazia de tudo na pharmácia. Adorava o trabalho. Dava plantão, fazia serão e, dizem, até aviava receitas. Topete gostava do seu trabalho. Seu tio, o seu Franco, via nele o herdeiro natural de toda aquela parafernália de bulas, poções, ácidos, bases e melhorais.

A pharmácia do tio era daquelas antigas, de móveis escuros, prateleiras altas, escada rolante para pegar o mais distante leite de magnésia. A maioria dos remédios era feita pelo próprio pharmacêutico. A indústria dos remédios ainda engatinhava no Brasil. O tio e Topete sabiam das dores das senhoras de Juiz de Fora, das pílulas daquele velhinho, da poção mágica para fazer dormir a moça da esquina, abandonada pelo namorado. A pharmácia, naquela época, era quase a extensão da casa das pessoas da cidade.

Topete já estava a aplicar injeções, com aquelas velhas seringas que antes eram esterilizadas a álcool e fogo na frente do atemorizado enfermo. Topete já estava se especializando em pegar veias difíceis. Tinha tudo para ser um grande pharmacêutico. Era o sonho dele, do tio e de toda a família. O futuro de Topete já estava traçado.

Topete não fazia outra coisa na vida. Era de casa para a escola, da escola para a pharmácia, da pharmácia para a cama. Apenas no carnaval ele se permitia brincar um pouco mais com seus coleguinhas de Juiz de Fora. Teve até um ano que descobriram que uma sua amiguinha estava sem... Deixa pra lá que isso é outra história.

Com o passar do tempo, começaram as dificuldades. Chegaram no Brasil as primeiras multinacionais da indústria pharmacêutica. E aqueles velhos e bons velhinhos, sempre de branco, com um termômetro no bolso, foram deixando de fazer as suas poções mágicas no fundo da pharmácia. A penicilina, a vitamina, eram as pós-modernidades da época. Os velhos pharmacêuticos foram perdendo a briga com as multinacionais dos remédios. Lá em Juiz de Fora, o seu Franco foi deixando de ganhar dinheiro. Primeiro teve que vender uma pharmácia. Já não podia pagar tão bem para o já adolescente Topete. Vendeu o fusca zero.

As coisas estavam ficando pretas, o topete do Topete estava cada vez mais de pé, como que arrepiado diante do problema que atingia toda a família.

Em poucos anos, o seu Franco pediu concordata e depois veio a inevitável falência. As multinacionais acabaram matando o seu Franco com um ataque fulminante no seu coração.
Topete não tinha mais o que herdar e estava desempregado. Não sabia fazer mais nada na vida a não ser os remédios e aplicar as suas agulhas e odiar cada vez mais as multinacionais dos remédios.

O que Topete iria fazer agora?

Foi quando ele teve uma idéia sensacional (segundo ele, é claro). Os pais estavam preocupados com o futuro do adolescente. Um dia, na hora do jantar, com a família toda reunida e mais um amiguinho grego que ele tinha, jogou na mesa a sua decisão:
—Vou ser Presidente da República!

—Presidente da República, meu filho? Tão difícil...

—Vou ser Presidente da República! E não vou fazer nada, absolutamente nada! Passarei para a história como o presidente que não fez nada!

—Mas, meu filho...

—Vou fazer uma coisa só, meu pai. Além de ir ao dentista, é claro. Só uma coisa. Mas vou fazer bem. Vai ser como se nada mais me interessasse. Nada, nada, nada. Apenas uma coisa eu vou fazer, papai.

—E nós podemos saber o que é que você vai fazer?

—Vou perseguir durante todo o meu mandato as multinacionais dos remédios. Vou baixar os preços, vou fechar indústrias, vou fazer o diabo! Vou encher o saco desses caras! Vou fazer tudo voltar à época das boticas e das manipulações! Vou vingar o titio, mamãe. Você me ajuda, Stepanenko?

Deu uma ajeitada no topete, guardou a caderneta escolar e pediu que lhe passassem o pão de queijo.