Me disse um amigo, todo orgulhoso:
- Com varanda!
Ele alugou um apartamento no 11º andar, com varanda.
E você já viu os anúncios de apartamentos para
vender? Eles fazem questão de falar na varanda. Tem uns com uma para cada
privada.
Estou olhando aqui pela minha janela. Tem vários
apartamentos em volta, com varandas. Todas vazias. Claro, varanda para
olhar o quê? Quem? Se pelo menos tivesse alguém na varanda do outro.
Esse pessoal acha que varanda é a mesma coisa que
alpendre. Seria, no máximo, um resquício do alpendre. Não é a mesma coisa,
não.
Vamos ao Aurélio:
Varanda: Balcão, sacada. Terraço. Gradeamento de
sacadas ou de janelas rasgadas ao nível do pavimento.
Alpendre: Espaço coberto, reentrante, e aberto na
fachada de uma casa, que dá acesso ao interior.
Mas a diferença básica é a seguinte: você vai ficar
na varanda do 16º andar para ver quem? Quem é que você acha que vai passar
por ali? Você acha que vai ver alguma pinta-brava?
Pessoa suspeita; cafajeste.
Pra que varanda se não tem pinta-brava? Entendeu o
que é pinta-brava?
Aquelas - estamos no interior - que são faladas. De
uma maneira ou outra, é falada. Mas isso não tem a menor importância para
quem olha, do alpendre. O que importa é que falam dela. É uma pinta-brava,
sussurram.
A gente conhecia todas das cidade e sabia onde, em
que rua passavam e, principalmente, a hora. Ficávamos nos alpendres. Ou
íamos ver pinta-brava em alpendre dos amigos. Todos os alpendres eram
territórios livres.
Nem todos eram bons: o do Caio, para exemplificar -
era pouco disputado porque a rua tinha só um quarteirão, pouquíssimo
movimento e, além do mais, se chamava Rua Gago Coutinho. Pinta-brava que
se preze não passa numa rua com esse nome. Difícil pintar uma pinta-brava
por ali. Pensando bem, a casa do Caio nem tinha alpendre.
Alpendre bom era o de esquina. É o que há. As
imobiliárias do interior podiam usar isso para as vendas: alpendre de
esquina! O bom alpendre ficava um pouquinho acima do nível da calçada. Mas
só um pouquinho. Com uma certa altura - digamos, de uma escadinha de dez
degraus.
Como eu invejava o alpendre do César, onde reinava
absoluta a dona Helia. A dona Helia dominava quatro ruas num mover de
olhos. Sabia de tudo.
Tinha alpendre tão grande que as festas eram nele. Só
nele. Ninguém entrava na casa. Lá dentro, os pais jogavam crapô. Imagine
agora, dar uma festinha - petit comite - na sua varanda de frente para a
outra varanda.
No alpendre se noivava até que o pai tossisse pela
segunda vez na sala.
Véspera de feriados chegava-se a quatro espirros.
A gente ficava no alpendre, viu?, garotada de hoje.
Aquilo é que era ficar.
Ali pecava-se com os pensamentos. Ali não se
respeitava mulher do próximo que passava indo para o cinema, de sombrinha
e tudo.
Tinha dois tipos de alpendre: um, que você ficava
sentado e tinha ampla visão, e uns outros, onde se ficava em pé, com os
cotovelos apoiados na sacadinha, meio curvado. Sempre achei esses mais
estimulantes para a imaginação. Talvez venha daí a dor-de-cotovelo. A dor
de só olhar, cobiçar.
Agora achei a palavra certa: os alpendres foram
feitos para a cobiça também.
Pois também era dali que a gente via os garotos de
pais mais ricos, passarem com um Aero Willys zero. Mas o que importava
eram mesmo as pintas-bravas. A gente pensava:
- Olha a pinta-brava! Onde será que essa pinta-brava
vai a uma hora dessas?
As bundas passaram pelo nosso alpendre e pela nossa
memória como um dos grandes momentos do século passado.
E vocês não podem imaginar como era gostoso ler uma
crônica no alpendre.
Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélson Rodrigues,
Millôr, Stanislaw Ponte Preta. Sabiam o que era um alpendre. E, muito mais
ainda, uma boa duma pinta-brava.
E nunca moraram em apartamento com varanda.