Página anterior

A varanda, o alpendre e a pinta-brava

Próxima crônica

o estado de s. paulo

14/03/2001

 


Me disse um amigo, todo orgulhoso:

- Com varanda!

Ele alugou um apartamento no 11º andar, com varanda.

E você já viu os anúncios de apartamentos para vender? Eles fazem questão de falar na varanda. Tem uns com uma para cada privada.

Estou olhando aqui pela minha janela. Tem vários apartamentos em volta, com varandas. Todas vazias. Claro, varanda para olhar o quê? Quem? Se pelo menos tivesse alguém na varanda do outro.

Esse pessoal acha que varanda é a mesma coisa que alpendre. Seria, no máximo, um resquício do alpendre. Não é a mesma coisa, não.

Vamos ao Aurélio:

Varanda: Balcão, sacada. Terraço. Gradeamento de sacadas ou de janelas rasgadas ao nível do pavimento.

Alpendre: Espaço coberto, reentrante, e aberto na fachada de uma casa, que dá acesso ao interior.

Mas a diferença básica é a seguinte: você vai ficar na varanda do 16º andar para ver quem? Quem é que você acha que vai passar por ali? Você acha que vai ver alguma pinta-brava?

Pessoa suspeita; cafajeste.

Pra que varanda se não tem pinta-brava? Entendeu o que é pinta-brava?

Aquelas - estamos no interior - que são faladas. De uma maneira ou outra, é falada. Mas isso não tem a menor importância para quem olha, do alpendre. O que importa é que falam dela. É uma pinta-brava, sussurram.

A gente conhecia todas das cidade e sabia onde, em que rua passavam e, principalmente, a hora. Ficávamos nos alpendres. Ou íamos ver pinta-brava em alpendre dos amigos. Todos os alpendres eram territórios livres.

Nem todos eram bons: o do Caio, para exemplificar - era pouco disputado porque a rua tinha só um quarteirão, pouquíssimo movimento e, além do mais, se chamava Rua Gago Coutinho. Pinta-brava que se preze não passa numa rua com esse nome. Difícil pintar uma pinta-brava por ali. Pensando bem, a casa do Caio nem tinha alpendre.

Alpendre bom era o de esquina. É o que há. As imobiliárias do interior podiam usar isso para as vendas: alpendre de esquina! O bom alpendre ficava um pouquinho acima do nível da calçada. Mas só um pouquinho. Com uma certa altura - digamos, de uma escadinha de dez degraus.

Como eu invejava o alpendre do César, onde reinava absoluta a dona Helia. A dona Helia dominava quatro ruas num mover de olhos. Sabia de tudo.

Tinha alpendre tão grande que as festas eram nele. Só nele. Ninguém entrava na casa. Lá dentro, os pais jogavam crapô. Imagine agora, dar uma festinha - petit comite - na sua varanda de frente para a outra varanda.

No alpendre se noivava até que o pai tossisse pela segunda vez na sala.

Véspera de feriados chegava-se a quatro espirros.

A gente ficava no alpendre, viu?, garotada de hoje. Aquilo é que era ficar.

Ali pecava-se com os pensamentos. Ali não se respeitava mulher do próximo que passava indo para o cinema, de sombrinha e tudo.

Tinha dois tipos de alpendre: um, que você ficava sentado e tinha ampla visão, e uns outros, onde se ficava em pé, com os cotovelos apoiados na sacadinha, meio curvado. Sempre achei esses mais estimulantes para a imaginação. Talvez venha daí a dor-de-cotovelo. A dor de só olhar, cobiçar.

Agora achei a palavra certa: os alpendres foram feitos para a cobiça também.

Pois também era dali que a gente via os garotos de pais mais ricos, passarem com um Aero Willys zero. Mas o que importava eram mesmo as pintas-bravas. A gente pensava:

- Olha a pinta-brava! Onde será que essa pinta-brava vai a uma hora dessas?

As bundas passaram pelo nosso alpendre e pela nossa memória como um dos grandes momentos do século passado.

E vocês não podem imaginar como era gostoso ler uma crônica no alpendre.

Rubem Braga, Fernando Sabino, Nélson Rodrigues, Millôr, Stanislaw Ponte Preta. Sabiam o que era um alpendre. E, muito mais ainda, uma boa duma pinta-brava.

E nunca moraram em apartamento com varanda.