Eu tinha um tio (e ainda tenho), o Hugo, que era
diretor de uma associação que cuidava de bois e afins. Ficava ali na Jacegüai. Tinha eu
uns vinte anos e estava começando este ofício da escrita.
Para sorte minha, um dia, lá estava o Amácio
Mazzaropi, da famosa PAM, discutindo vacas com o tio Hugo. Eu havia chegado há pouco
tempo de Lins onde assistia a todos os seus filmes lá no velho Cine São Sebastião,
"o palácio encantado da Noroeste". Daquele homem que, agora, me estendia as
mãos num muito prazer (muito mais meu do que dele). Tremi de emoção.
Talvez o Mazzaropi tenha sido o único grande ator e
cômico brasileiro a viver (e bem) exclusivamente do cinema. Coisa ele fazia bem como
ninguém e seus filmes hoje são considerados clássicos do humor debochado e brasileiro.
Meu tio (e fã) foi logo dizendo que eu andava meio
metido a escrever umas "bobageiras". Naquela época eu só escrevia sobre
assuntos sérios. O Mazzaropi foi logo me contrariar, com muito humor e o seu velho
deboche:
- O povo quer rir, menino. Escreva humor. Veja o meu
caso, os intelectuais todos falam mal de mim. Veja o nosso amigo Anselmo Duarte: ganhou a
Palma de Ouro e está duro, vendeu até a Kombi, pelado, se abanando com a Palma. Agora
pergunta para o seu tio quantas cabeças de zebu eu tenho. Pergunta.
Disse isso com aquele seu jeitão de caipira meio
viado, mas com o coração aberto e, senti, também, com uma certa admiração pelo colega
Anselmo.
Hoje, anos depois, percebo que tenho escrito só com
humor. Ainda não comprei tantas vacas como o Mazza. Mas, infelizmente, também não
ganhei em Cannes.
E ainda tive a cara de pau de pedir para ele um dia escrever um
roteiro de um filme dele, em parceria. Teria adorado. Mas ele morreu antes,
deixando muita gente triste, sem rir, sem se reconhecer (como eu) com aquela
vida boa do interior de São Paulo.