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A ÚNICA VEZ QUE EU VI O MAZZA

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Para exposição sobre Mazzaropi

1997

 


Eu tinha um tio (e ainda tenho), o Hugo, que era diretor de uma associação que cuidava de bois e afins. Ficava ali na Jacegüai. Tinha eu uns vinte anos e estava começando este ofício da escrita.

Para sorte minha, um dia, lá estava o Amácio Mazzaropi, da famosa PAM, discutindo vacas com o tio Hugo. Eu havia chegado há pouco tempo de Lins onde assistia a todos os seus filmes lá no velho Cine São Sebastião, "o palácio encantado da Noroeste". Daquele homem que, agora, me estendia as mãos num muito prazer (muito mais meu do que dele). Tremi de emoção.

Talvez o Mazzaropi tenha sido o único grande ator e cômico brasileiro a viver (e bem) exclusivamente do cinema. Coisa ele fazia bem como ninguém e seus filmes hoje são considerados clássicos do humor debochado e brasileiro.

Meu tio (e fã) foi logo dizendo que eu andava meio metido a escrever umas "bobageiras". Naquela época eu só escrevia sobre assuntos sérios. O Mazzaropi foi logo me contrariar, com muito humor e o seu velho deboche:

- O povo quer rir, menino. Escreva humor. Veja o meu caso, os intelectuais todos falam mal de mim. Veja o nosso amigo Anselmo Duarte: ganhou a Palma de Ouro e está duro, vendeu até a Kombi, pelado, se abanando com a Palma. Agora pergunta para o seu tio quantas cabeças de zebu eu tenho. Pergunta.

Disse isso com aquele seu jeitão de caipira meio viado, mas com o coração aberto e, senti, também, com uma certa admiração pelo colega Anselmo.

Hoje, anos depois, percebo que tenho escrito só com humor. Ainda não comprei tantas vacas como o Mazza. Mas, infelizmente, também não ganhei em Cannes.

E ainda tive a cara de pau de pedir para ele um dia escrever um roteiro de um filme dele, em parceria. Teria adorado. Mas ele morreu antes, deixando muita gente triste, sem rir, sem se reconhecer (como eu) com aquela vida boa do interior de São Paulo.