SAN
FRANCISCO - Não é fácil chegar a uma Copa do Mundo. Principalmente se esta
Copa for nos Estados Unidos. Mais difícil ainda é chegar a San Francisco. Só
vindo até aqui é que se percebe que San Francisco fica perto do Japão. Foram
24 horas de viagem. Oito até Miami, a capital do norte da América do Sul, mais
oito de espera dentro daquele aeroporto roxo e cafona e depois mais seis até
San Francisco. Com um detalhe aterrorizante: não se pode fumar dentro dos
aeroportos e nem dentro dos aviões domésticos.
O
avião levantou vôo há uma hora de Miami e eu estou aqui dentro sofrendo com a
falta da nicotina. Nada de Varig: a cerveja custa 3 dólares e você paga 4 para
ver o filme. Prefiro olhar pela janela e sentir, como num filme adolescente, a
conquista do velho oeste.
Olho
pela janela e estamos em cima do Golfo do México. O céu está limpo e, forçando
a vista e a imaginação, é possível ver lá embaixo Errol Flynn lutando
contra a pirataria de Sir Drakon. Rita Hayworth espera angustiada na cabine, sem
fumar. Se não me falha a memória, Errol morreu de câncer no pulmão.
Mais
uma hora e estamos sobrevoando New Orleans. Dá para escutar lá embaixo o
pessoal tocando música country no final do século passado. Hollywood,
que fica na Califórnia, começa a invadir a minha cabeça por falta de fumo.
Meu companheiro Matthew Shirts me diz que acaba de descobrir que parou de fumar.
Mas assim que arrumar um local, volta imediatamente. A fumaceira dos bares de
New Orleans invade a cabine. Bandolim na veia.
Agora
estamos no meio dos Estados Unidos. Começa a conquista do oeste. Olho para
baixo. Oklahoma. Colorado. O chão é mesmo colorado. À minha esquerda,
Arizona. Lembro do cigarro e da Kate Lyra que nasceu em Phoenix. Isso, logo
depois do Novo México. Marlon Brando corria, defendendo os mexicanos.
Albuquerque (Lins?) está sitiada. Estamos em meados do século passado. Brando
ainda era magro.
Montanhas
lá embaixo. Não as Rochosas, mas rochosas. Paul Newman e Sundance Kid
preparam-se para pular de um despenhadeiro. Os índios e os xerifes estão atrás
deles. Não vejo John Wayne dando tiros, nem matando apaches, nem procurando
ouro, mas vejo a última diligência rasgando o chão do oeste com o Richard
Widmark.
Agora
é o Warren Beatty que está fazendo xixi em pleno deserto. Ele jura que dali a
alguns anos, naquele cerrado branco, vai surgir a capital do jogo, uma tal de
Las Vegas. Era uma vez, no oeste, sete homens e um destino por um punhado de dólares.
O dólar nem um pouco furado. Billy The Kid, ainda menino, brincando num riacho
claro com Jane Fonda.
Fico
imaginando os ingleses e os irlandeses atravessando aquele deserto ensolarado.
No Curral OK posso ver Wyatt Earp e Doc Holliday (eram estes os nomes?)
preparando-se para um duelo mortal. Não era fácil por ali, naquele tempo. Mais
à frente uma fazenda: Alan Ladd se despede do garoto. A música de Shane invade
meus ouvidos. Vontade de fumar como ele, sentado numa cadeira de balanço, vendo
o horizonte empoeirado. Logo na frente, Monterrey. Não é uma marca de
cigarros?
A
aeromoça serve carne com feijão e milho. Estou mesmo chegando nos Estados
Unidos. Agora, montanhas com gelo em cima. É Nevada, me explica Matthew. Vejo
Gary Cooper por lá, numa nevasca braba. Nebraska. O americano me explica que
muitos aventureiros tentaram ultrapassar aquelas montanhas a pé, na busca do
ouro e do futuro. Morreram todos. ''Sorte que o meu bisavô ficou em Utah''. Mas
lá, naquelas crateras quase lunares, a corrida do ouro continuava por um lugar
ao sol no tempo das diligências. Quem estava sempre por ali era o Randolph
Scott, que sempre fumou e nunca morreu.
Sobrevoamos
Los Angeles com a sua montanha escrito Hollywood, que nos alimentaria de todos
estes sonhos, mostrando a conquista do oeste. De que vale o céu azul e o sol
sempre a brilhar se entro no avião e não posso mais fumar?
Estamos
chegando a San Francisco. Lagos vermelhos e amarelados, uma visão mesmo psicodélica,
como o lugar. Passamos agora por cima da pequena ilha de Alcatraz. Steve McQueen
tenta, desesperadamente, fugir da prisão. Sobrevoamos o centro. Lá está o
Polanski filmando Chinatown e carros em desenfreadas corridas pelas ruas
da cidade. Ninguém fuma na rua. San
Francisco Dream. O sonho ainda não acabou.
Estamos
agora aterrissando. Estou chegando no extremo-oeste americano. Sinto-me um pouco
inglês, um pouco conquistador. Será que a seleção de futebol do Brasil vai
mesmo conquistar o oeste americano?
O
aviso pousa. Sinto no ar um contato imediato de terceiro grau. Descemos no
aeroporto. "Proibido fumar". Mas tem uma sala escrito: smaking room
entrance. Entramos. Nossa viagem apenas começou
Era
uma vez no oeste. Vamos em frente, que temos topete para o tetra.