Foi só fazer a
conta e descobrir que esta é a crônica de número 500 que escrevo aqui. Nem
minha mãe diria.
E, por falar em
mãe, o fato me leva lá para os anos 60, no interior de São Paulo. Garoto,
lia todo dia a Última Hora. E lá me deliciava com os mestres Nelson
Rodrigues e Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto). Na quarta chegava O
Cruzeiro, com o gênio Millôr Fernandes. Mas bom mesmo era a Manchete que
vinha com quatro cronistas definitivos: Henrique Pongetti, Paulo Mendes
Campos, Fernando Sabino e Rubem Braga. Resumindo: os sete melhores cronistas
brasileiros de todos os tempos. A eles acrescentaria hoje o Verissimo. E eu,
debaixo dos meus 14 anos, queria - um dia! - ser igual a eles: um cronista.
Hoje, pelo
menos em termos quantitativos, sou. Me lembro quando o Aluísio Maranhão,
então diretor de redação do Estadão, me chamou em 1993 e me propôs escrever
aqui. Era tudo que eu queria. Já havia escrito livros, novelas, roteiros de
cinema e, principalmente, teatro. Mas, lá no fundo, eu sabia que um dia um
louco ia me dar a chance. E eu comecei com uma crônica chamada
Envelhescência, cujo sucesso me assustou. Meu Deus, e amanhã, vou escrever o
quê?
De lá pra cá,
foram 500, incluindo as das Copas de 94 e 98. Quinhentas vezes, 500 idéias.
Agora, neste exato momento, várias delas estão passando pela minha cabeça.
Acho que eu já escrevi sobre tudo: vacas, satélites, futebol, mulheres,
vôlei, vestibular, filhos, avós, papa (essa deu rolo...), mexerica,
quebra-vento, política, corrupção, malufes, collors e etecéteras.
Até sobre o
etecétera eu já escrevi. Dá para fazer a lista das dez melhores e - mais
fácil - das dez piores. Eu sei que já escrevi coisas aqui que, antes mesmo
de o jornal sair, eu já estava arrependido. E, algumas vezes, escrevi textos
que não imaginava que iam repercutir e chover tantos e-mails.
Diariamente o
Estadão entrevista 200 leitores sobre o jornal. E sobre a crônica do dia.
Assim, fico sabendo quantas pessoas me leram e a nota de cada texto,
semanalmente. E, até hoje, me surpreendo com sua reação, leitor.
E isso é
importante para todos nós, saber como anda a cabeça do leitor. Sim, minha
amiga, você não sabe, mas a gente te pesquisa.
Outro dia
recebi uma crônica que eu escrevi, de um leitor, por e-mail. E eu não me
lembrava de ter escrito aquilo. Cheguei a dizer que não era minha.
Foi necessário
que o cidadão escaneasse o jornal e me mandasse. O que acontece também é de,
depois de seis ou sete anos, escrever a mesma crônica.
Nem eu nem o
jornal percebemos. Mas você, leitor, está sempre atento. E manda carta,
reclamando. Nessas horas o mínimo que dizem é vagabundo.
Desculpa, cara.
Vendo agora o
título da maioria delas, vejo que cumpri a velha e boa missão do cronista:
registrar o tempo em que vivemos. Afinal, a palavra crônica vem de kronos
(grego) e significa tempo. Eu sei, minha cara, que já devo ter escrito isso
umas 17 vezes. As 500 crônicas passaram por três governos, três Copas,
algumas namoradas, uma pneumonia, dois dentes quebrados, quatro casas e a
perda de um pai. E o surgimento de um terceiro filho, o Pedro.
Por 500 vezes
fui adjetivado de ignorante, de gênio, de metido a besta, de gostoso de se
ler, de analfabeto. Não importa, pois apesar do adjetivo, o substantivo era
sempre o mesmo: cronista.
Distante ainda
estou eu dos meus mestres Millôr, Sabino, Braga e Nelson. Mas espero que um
dia alguém fique famoso e diga que na adolescência lia o Mario Prata. Isso é
gostoso.
Não sou nenhum
Pelé da literatura, mas espero te encontrar aqui no número 1.000, em 2011.
Para tanto, basta que eu continue escrevendo toda semana as minhas bobageras
(no dizer do meu pai) e você a me ler toda quarta-feira.
Sim, meu
querido e minha querida, como dizia o cancioneiro popular, "sem você eu não
sou ninguém".
Obrigado por me
aturarem, obrigado pelo leite e pelo uísque das crianças.
Quinhentas
vezes obrigado.