- Estava dormindo?
- Não, ia começar a escrever a minha crônica de quarta-feira.
- Sobre o que é? Não
agüento mais você falar no Caya, perdão, Naya.
- Não, não. É sobre aquela empregada doméstica nova que chega na casa e descobre que
nada é dos proprietários. O jardim é do Burle Marx, a casa do Ruy Othake e...
- Mas isso é uma piada. E velha ainda por cima. No final, termina dizendo que o marido da
madame tem um Picasso e a empregada diz que viu e que não era tão grande assim. Não é
isso? E você vai escrever isso? Não tem nenhum consideração com os leitores?
- É, estava pensando em ampliar a piada.
- Vai ficar pior ainda.
- Mas eu pesquisei. As roupas do cara, por exemplo, não são dele. São do Armani, do
Valentino, dum tal de VR, os sapatos da mulher são da Serpui Marie. Descobri que até a
privada não é deles. É duma tal de dona Celite.
- E você acha que o leitor e a leitora estã preocupados com a privada da fulana de tal?
Pirou, meu? E a emoção, onde é que fica? Outro dia você passou o final de semana todo
com o Fernando Morais, a Marina Maluf e o Ricardo Setti pesquisando expressões
estrangeiras usadas no Brasil tipo pão francês, molho inglês ou pastor alemão.
Escreveu uma crônica e o que foi que aconteceu? Tirou a pior nota aqui neste espaço,
desde 93. Já na quarta passada escreveu que o seu apartamento tinha caído na Barra e
quanto tirou de nota? 9,41. E por que? Porque você jogou com a sua emoção e a do
leitor. Muita gente até chegou a achar que você tinha mesmo um apartamento lá.
- Sabia que a revista Caras até me ligou, pedindo uma matéria? Acreditaram na minha
queda emocional. Eu fiquei até me imaginando na Caras, em cima de uns escombros, com a
manchete: Mario Prata Mostra a Sua Casa...
- Claro, acreditaram porque tinha verdade no texto e, repito, emoção. Você viu a
quantidade de cartas, telefonemas e e-mail? E agora você me ameaça escrever uma crônica
contando uma piada, fazendo um trocadilho infame com o pobre do Picasso? Tanta coisa
acontecendo... Porque você não escreve sobre o black-out paulistano? Crie. Imagine
situações causadas pela súbita escuridão. Um sujeito ilhado em casa, sem telefone,
luz, elevador, interfone, fax, computador e...
- Já escrevi esta crônica no black-out do ano passado. Aliás, ontem eu estava
conversando com a Lucila no clube e ela me sugeriu que...
- Quem é a Lucila?
- Uma amiga minha.
- Que amiga? Você nunca me falou que conhecia nenhuma Lucila.
- Vai começar de novo? Será que a gente não consegue conversar sem brigar?
- Eu não estou brigando. Só perguntei quem é essa Lucila.
- Por favor, não grite.
- Eu não estou gritando!
- Claro que está. Olha, são quase duas da manhã e ...
- Não muda de assunto, não. Eu só estou perguntando quem é essa tal de Lucila.
- A gente estava falando sobre a crônica, sobre a emoção.
- Quero que a emoção se dane (não foi bem esta a palavra usada)!
- Você leu a crônica do Ubaldo domingo? É pura emoção. Legal, parece que ele parou
mesmo de beber.
- Quero que o Ubaldo se dane! Aposto que você já contou a piadinha do camelo para ela.
Eu te conheço. Contou ou não contou a piadinha do camelo para ela?
- Que piadinha, amor?
- Como, que piadinha? Como você é cara de pau, meu! Contou ou não contou a piadinha do
camelo para ela? A do tijolo! Confesse!
- Pra dizer a verdade eu contei a do Picasso. Só que ela já conhecia. E ainda disse que
era velha.
- E você quer transformar o Picasso em arte, depois de usar o cara como cantada?
- Quem foi que falou em cantada?
- Já não bastavam a Camille, a Sol e agora essa tal de Lucila...
- Meu anjo, a gente estava falando sobre a emoção, não é mesmo? Olha, ela até é
casada.
- Não quero saber. Sem detalhes, por favor. É mais informação do que eu preciso.
Desligou na minha cara. Estou aqui diante da tela branca do notebook. O que você quer? A
piada do Picasso, a piada do camelo bem tijolado? Ou você também quer saber quem
é a Lucila?