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A profissão de escritor

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ISTOÉ

1998

 


Lá pra trás tem, muito bem explicadinhas, 50 profissões. Se você começou a ler a revista pelo começo (coisa de anormais), já percebeu. Agora, se você é uma pessoa normal e está começando a revista por aqui, fique sabendo disto: esta revista não considera a minha profissão - escritor! - uma profissão. Não está catalogada. Claro, pensaram os editores, se não tem nem faculdade, nem vestibular, não é profissão.

Só que eles estão me pagando para escrever isso aqui. Tudo bem, as putas também são pagas. Se você for mulher e quiser ser puta, não precisa nem de vestibular, nem de faculdade. Mas não pense que é moleza, não. É uma das mais velhas profissões e das mais difíceis. Vida curta, como a dos jogadores de futebol, “modelo e atriz” e aeromoça.

Tá vendo, já comparei a minha profissão com a das putas, dos jogadores de futebol, das modelos e das aeromoças. Todas, dignas profissões que requerem apenas o vestibular da vida, como diria Menochi del Pichia.

Aposto que entre as 50 lá de dentro também não tem padre. Nem pistoleiro profissional. Muito menos dona-de-casa, que são as mulheres que mais trabalham no mundo todo.

Não deve ter agiota nem dono de bingo. Nem cartola, nem juiz de futebol. E crítico de teatro? Nelson Rodrigues que o diga.

Torneiro mecânico, tem? Não? Mas tem um aí que tenta ser presidente pela penúltima vez. Vai ver que não se elege justamente por ser um torneiro, masculino de torneira. Aquele emprego lá é para sociólogos ou doidos. Aliás, doido é uma profissão. Veja o maníaco do parque, o Chico Estrela, profissão doido. As portas não se fecham, nessa profissão. Justifica-se tudo.

Guardador de carro em frente de tudo quanto é lugar, tem? Dá muito mais dinheiro que psicologia e zootecnia que devem estar lá dentro.

Ganhador de loteria como aquele anão, tem não. Fazedor de prédio que cai, não cai no vestibular. Piloto de fórmula um não é profissão que se apresente.

E filha tem? Quer profissão melhor do que ser filha da Xuxa e da Marlene Matos? Já nasceu aposentada, coitadinha.

Eu comecei a crônica falando da minha profissão e viajei. No Brasil só é considerado escritor quem escreve romance. E os poetas? E os jornalistas, como os que escreveram essa edição, são o que? E os publicitários com suas frases de efeito e defeito? E aquele desconhecido que faz o prospecto da sua geladeira? Tá certo que ele é meio complexo e prolixo, mas não deixa de ser escritor. E o pessoal que escreve as bulas? Escritores, sim senhor. Escrever uma crônica é fácil, devem pensar os bulitas. Quero ver é ele escrever uma bula.

Esse monte de bobagem, meu amigo e minha amiga, que vai fazer o vestibular, você que é obrigado a resolver esse dilema com tão pouca idade, esse monte de bobabem, cara, é só para te dizer que quem vai decidir a sua profissão e o seu futuro não é nenhuma das respostas anteriores. Você só vai ser feliz e se sentir realizado profissionalmente se escolher um trabalho que faça com prazer, com tesão.

Com tanto prazer e tanta tesão que você não vai querer aposentar-se nunca.

Quem gosta de exibir diploma é médico e advogado nas paredes, junto com istoés, vejas e manchetes velhas. Tá na caras!

Diploma a gente tem que tirar é de dentro do coração da gente. Sem sangrar, de leve, sem pressa, consciente. O resto é múltipla escolha, coisa do século XX e a gente está entrando no XXI.

Já pensou nisso? Como queríamos demonstrar?