A primeira vez que eu ouvi falar na pororoca (o nome
é ótimo, gordo e cheio de humor) do rio Amazonas, era ainda pequeno mas gravei a voz
grave do meu tio que por lá pororocou nos anos 60:
- A pororoca é um poema!
Nunca entendi o porque. Mas hoje, com a ajuda do
Aurélio, cheguei lá. Acompanhe a minha navegação rumo à pororoca:
Pororoca: (do tupi poro'roka, germânico de
poro'rog, 'estrondar') Macaréu de alguns metros de altura, grande efeito destruidor e
forte estrondo, que ocorre próximo à foz do Amazonas e de alguns rios do MA; mupororoca:
"Assim que começou a fase da lua cheia, chegou também a pororoca. .... De repente,
ouviu-se um estrondo distante. Parecia que o mar tinha se quebrado. Surgiu depois, no
horizonte fluvial, um vagalhão imenso, como um Niágara avançando rio adentro. Vinha
arrebentando tudo. Destruía o que encontrava pela frente. Solapava .... as ribanceiras
das ilhas. Fatias de terra molhada escorregavam, como uma mole, dentro d'água."
(Raul Bopp, Putirum, p. 206.)
Aí, é claro, fui ver o que era macaréu: onda de
arrebentação que, próximo à foz pouco profunda de certos rios, por ocasião da maré
montante, irrompe de súbito em sentido oposto ao do fluxo das águas do rio, e, seguida
de ondas menores, sobe rio acima, por vezes com forte ruído e devastação das margens,
amortecendo-se à medida que avança: "As aluviões, os enxurros da cordilheira, ....
em luta com a força das marés que se encrespavam em macaréus, foram depositando
sedimentos, detritos, em torno dos núcleos penhascosos do Guaíbe e do Monserrate."
(Júlio Ribeiro, A Carne, p. 118.)
De macaréu, vamos direto para fluxo.
Fluxo: monólogo interior realizado diretamente pela
personagem, sem interferência do autor, e que reflete os processos psíquicos dessa
personagem, significativos para o desenvolvimento do tema central.
Chegamos no monólogo. Já está virando poesia, a
pororoca.
Monólogo: (do grego monólogos,
"que fala só")
Cena em que um só ator representa, interpretando um personagem que fala ao público ou
consigo mesmo: É famoso o monólogo de Hamlet, da peça do mesmo nome, de Shakespeare.
Estamos quase desaguando. Já chegamos no
personagem.
Personagem: (do francês personnage) Pessoa
notável, eminente, importante; personalidade, pessoa. Cada um dos papéis que figuram
numa peça teatral ou filme, e que devem ser encarnados por um ator ou uma atriz; figura
dramática. Cada uma das pessoas que figuram em uma narrativa, romance, poema ou
acontecimento. Ser humano representado em uma obra de arte: O guerreiro é a personagem
mais expressiva do quadro.
Rimemos, chegamos ao poema.
Poema: (do grego poíema, 'o que se faz', pelo latim
poema) Obra em verso. Composição poética de certa extensão, com enredo. Composição
de estrutura livre, para instrumento único ou instrumento solista.
Portanto, como queríamos demonstrar, uma pororoca
é um poema e não se fala mais nisso!