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A POLTRONA

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o estado de s. paulo

03/05/2000

 


Eram duas, as poltronas. Chegaram em Lins, junto com a televisão, em 1964, trazendo a revolução, o Direito de Nascer e o Diário de São Paulo na TV. Tudo pela Tupi, é claro.

As poltronas eram da casa do Caio, cujos pais, dona Lila e seu Júlio, foram dos primeiros na cidade a ter a tal da televisão. E as duas poltronas, que eram para os dois assistirem às novidades. Mas, depois de uma certa hora, éramos eu e o Caio que lá nos refestelávamos. Era uma delícia, a poltrona.

Tão boa quanto a televisão. Colorida, é claro. É que o seu Júlio comprou um plástico multicolorido que prendia na tela preto-e-branco. Eram cores em faixas paralelas. Então, na novela, por exemplo, você via a artista com o cabelo verde, o rosto amarelo, o busto azul e, da cintura pra baixo, vermelho.

Voltando às poltronas. Você forçava um pouco com as costas e ela virada quase uma cama, ficava na medida certa para acompanhar o Repórter Esso, segunda edição. Nunca mais na vida teria uma poltrona como aquela, a poltrona da dona Lila.

E a dona Lila, há uns 15 anos, morreu. Um dia me encontro com o seu Júlio, encho a cara dele (ele toma cachaça há 88 anos e está firme como as poltronas) e faço o pedido:

- Seu Júlio, quando o senhor morrer, e eu espero que isso leve muito tempo, o senhor coloca lá no testamento do senhor que uma das poltronas o senhor deixa pra mim?

Ele sabia o significa da poltrona, pra mim:

- Leva já!

Estava bem abandonada a poltrona da dona Lila, há anos sem uso. Mas o jeitão era o mesmo. Bati o pó, estiquei a perna e juro que até ouvi a voz do Blota Júnior.

Conseguimos, com muito custo, colocar dentro do meu carro com praticamente todos os bancos deitados. Mandei para um cadeireiro para a reforma necessária. Ajeitar as molas, mudar o tecido, calibrar as engrenagens. Fiz a reforma no apartamento visando a um lugar de destaque para a poltrona da dona Lila. Foi fotografada pela revista Caras, mas a foto não saiu na matéria.

Talvez tenha sido pela reforma. Como disse o Mateus, é como se uma velhinha tivesse feito plástica. Ela estava deformada. Muito esticada. Dura. Seu molejo já não era o mesmo. O tempo foi passando e ela rodando de um cômodo para o outro. Definitivamente, não era mais aquela poltrona.

Até que eu resolvi dar a poltrona, depois de dias e noites de culpas e recordações. Aquela poltrona amarela não tinha mais nada a ver com a minha vida. Talvez ela tivesse morrido junto com a minha querida dona Lila.

O porteiro, o Fernando, adorou a novidade. E, enquanto eu via a poltrona entrando no elevador, ele me disse que estava construindo uma casinha lá no Mamonas e que a poltrona ia cair muito bem lá.

- Mamonas, onde que é isso?

- Lá, onde caiu o avião com os Mamonas. Valorizou muito o meu terreno.

Ela vai se dar bem lá, pensei também. Ela é (hoje em dia) do mesmo amarelo-cheguei da Brasília Amarela. E na casa do Caio tinha mamona. Fiquei mais ou menos tranqüilo quanto ao seu destino.

Mas entrei em casa e me deu remorso. Eu não tinha que ter dado a poltrona da dona Lila. Ela tinha que me acompanhar pru resto da vida. O que o seu Júlio não ia pensar de mim entre um trago e outro?

Fui até a casa do zelador. A filhinha abriu a porta e o Fernando estava lá, todo refestelado. Acho que ele sentiu que eu queria a bichinha de volta.

- Seguinte, Fernando, quando você inaugurar a casa lá no Mamonas, você me convida para um churrasco, tá?

- Claro, seu Mario! E o senhor vai se sentar aqui.

Voltei pra casa mais tranqüilo. A poltrona da dona Lila, quem diria, vai ficar lá perto dos Mamonas Assassinas. Ao lado da Brasília Amarela.

Acho que a dona Lila não iria brigar comigo