Eram duas, as poltronas.
Chegaram em Lins, junto com a televisão, em 1964, trazendo a revolução, o
Direito de Nascer e o Diário de São Paulo na TV. Tudo pela Tupi, é claro.
As poltronas eram da casa do
Caio, cujos pais, dona Lila e seu Júlio, foram dos primeiros na cidade a ter a
tal da televisão. E as duas poltronas, que eram para os dois assistirem às
novidades. Mas, depois de uma certa hora, éramos eu e o Caio que lá nos
refestelávamos. Era uma delícia, a poltrona.
Tão boa quanto a televisão.
Colorida, é claro. É que o seu Júlio comprou um plástico multicolorido que
prendia na tela preto-e-branco. Eram cores em faixas paralelas. Então, na
novela, por exemplo, você via a artista com o cabelo verde, o rosto amarelo, o
busto azul e, da cintura pra baixo, vermelho.
Voltando às poltronas. Você
forçava um pouco com as costas e ela virada quase uma cama, ficava na medida
certa para acompanhar o Repórter Esso, segunda edição. Nunca mais na vida
teria uma poltrona como aquela, a poltrona da dona Lila.
E a dona Lila, há uns 15
anos, morreu. Um dia me encontro com o seu Júlio, encho a cara dele (ele toma
cachaça há 88 anos e está firme como as poltronas) e faço o pedido:
- Seu Júlio, quando o senhor
morrer, e eu espero que isso leve muito tempo, o senhor coloca lá no testamento
do senhor que uma das poltronas o senhor deixa pra mim?
Ele sabia o significa da
poltrona, pra mim:
- Leva já!
Estava bem abandonada a
poltrona da dona Lila, há anos sem uso. Mas o jeitão era o mesmo. Bati o pó,
estiquei a perna e juro que até ouvi a voz do Blota Júnior.
Conseguimos, com muito custo,
colocar dentro do meu carro com praticamente todos os bancos deitados. Mandei
para um cadeireiro para a reforma necessária. Ajeitar as molas, mudar o tecido,
calibrar as engrenagens. Fiz a reforma no apartamento visando a um lugar de
destaque para a poltrona da dona Lila. Foi fotografada pela revista Caras, mas a
foto não saiu na matéria.
Talvez tenha sido pela
reforma. Como disse o Mateus, é como se uma velhinha tivesse feito plástica.
Ela estava deformada. Muito esticada. Dura. Seu molejo já não era o mesmo. O
tempo foi passando e ela rodando de um cômodo para o outro. Definitivamente, não
era mais aquela poltrona.
Até que eu resolvi dar a
poltrona, depois de dias e noites de culpas e recordações. Aquela poltrona
amarela não tinha mais nada a ver com a minha vida. Talvez ela tivesse morrido
junto com a minha querida dona Lila.
O porteiro, o Fernando, adorou
a novidade. E, enquanto eu via a poltrona entrando no elevador, ele me disse que
estava construindo uma casinha lá no Mamonas e que a poltrona ia cair muito bem
lá.
- Mamonas, onde que é isso?
- Lá, onde caiu o avião com
os Mamonas. Valorizou muito o meu terreno.
Ela vai se dar bem lá, pensei
também. Ela é (hoje em dia) do mesmo amarelo-cheguei da Brasília Amarela. E
na casa do Caio tinha mamona. Fiquei mais ou menos tranqüilo quanto ao seu
destino.
Mas entrei em casa e me deu
remorso. Eu não tinha que ter dado a poltrona da dona Lila. Ela tinha que me
acompanhar pru resto da vida. O que o seu Júlio não ia pensar de mim entre um
trago e outro?
Fui até a casa do zelador. A
filhinha abriu a porta e o Fernando estava lá, todo refestelado. Acho que ele
sentiu que eu queria a bichinha de volta.
- Seguinte, Fernando, quando
você inaugurar a casa lá no Mamonas, você me convida para um churrasco, tá?
- Claro, seu Mario! E o senhor
vai se sentar aqui.
Voltei pra casa mais tranqüilo.
A poltrona da dona Lila, quem diria, vai ficar lá perto dos Mamonas Assassinas.
Ao lado da Brasília Amarela.
Acho que a dona Lila não iria
brigar comigo