- O doutor Heyde morreu!
Soube pelo telefone, de sopetão, enquanto tentava vender a casa
dos meus pais, no interior. Luizinho Prudêncio, arquiteto-mor de Lins, me
informou logo cedo. Não tenho mais detalhes, disse, triste. A morte do doutor
Heyde, na véspera do Natal, no final de um ano de tantas mortes de tantos
amigos e brasileiros gostosos, me derrubou naquela manhã.
Estava na casa da minha irmã Rita. Meu pai e minha mãe também.
Todos eram amigos do Heyde, da Lurdinha e dos filhos Heydinho e Cláudia, hoje
já senhores. O almoço foi triste. Minha mãe queria ligar logo para a Lurdinha
dando uma força. Meu pai ponderou que era ainda muito cedo. Amanhã a gente
telefona. E passamos o almoço a lembrar do doutor Heyde, um médico anônimo
para a grande multidão, baiano que escolheu Lins nos anos cinquenta para fazer
a vida e viver. E como gostava de viver o doutor Heyde. Passamos o almoço a
lembrar, com o coração partido, daquele cardiologista. Em vez de um, tomei
dois uísque. Um por mim e outro por ele.
Era bem mais velho do que eu. Mas foi ele, o primeiro na cidade
a me dar força quando comecei a rabiscar crônicas. Foi ele o primeiro a dar
uma casa para o Luizinho projetar quando se formou em arquitetura. Estava
sempre ligado aos jovens, aos novos. Culto e grande orador, de um humor
sibilino e ao mesmo tempo ligeiro.
Depois do almoço volto para o meu apartamento e ligo para o
também linense, o poeta Sergio Antunes. Sergio também mal pôde acreditar. Pedi
que ele ligasse para mais gente de Lins. Nosso amigo Heyde, que já devia ter
estar perto dos setenta, morreu.
Desligo o telefone e pego um dos livros escritos por Heyde C.
Santos, que se chama "Hei de Ser Santo", uma brincadeira que ele fazia com o
próprio nome. São glosas, poemas, pequenas crônicas, numa edição do autor
típica de cidades do interior. A verve baiana estava lá, espontânea. Penso em
escrever uma crônica sobre a morte do meu velho amigo. Mas a dor é mais forte.
Além do mais, o que os meus leitores têm a ver com a morte de um médico lá de
Lins? Vejo a dedicatória que me fez em 86: "Para o amigo Mario Prata, as
sátiras e o lirismo do poeta menor, Heyde". Folheio o livro quase me
marejando.
Sergio Antunes me liga perguntando da possibilidade de irmos
para o enterro. Disse que já havia ligado para todo mundo. Os amigos
paulistanos do Heyde choravam a sua morte a 450 quilômetros por hora. Mas que
hora é o enterro? Vai ser em Lins, Getulina (terra da Lurdinha) ou na Bahia?
Vamos descobrir. Desligo e o telefone toca novamente. É o arquiteto Luizinho
que havia arquitetado toda a confusão, entre o assustado, o solícito e o
feliz:
- Era boato! O doutor Heyde não morreu! Tá mais vivo do que
nunca! Desculpa!
Desculpo e abro um sorriso e disparo o coração que outro dia
mesmo ele eletrocardiografou. Agora era avisar todo mundo que a morte
anunciada não foi como a do Garcia Márquez. O homem estava vivo. Ainda não era
desta vez que ele viraria santo.
De noite, no bar Spot, eu e Sergio bebemos e bebemos à saúde do
grande cardiologista e poeta maior que, um dia, mas não muito cedo, será
santo. Por enquanto, nós pecadores, enchendo a cara e quase ligando para a
casa dele lá pelas três da madrugada, lembramos de uns versos do "poeta
menor":
"Depois do qui aconteceu / o dotô, Maria e eu / entremo num
quarto iscuro / onde se inxerga o futuro. / Pois, cumpadre, já li conto, / fui
pru ditraz duma porta / qui mi ispantei, fiquei tonto, / vendo a muié viva...
e morta. / Bem que fiquei lá no canto, / pois o home mi ispricou / (num sei se
pur arrilia) / qui esse té rádios cuspia. / Baiano é discunfiado, / ainda mais
se avisado. / Mas quando vi a cavera / e a ossada da muié / pru ditraz lá do
caixão, / qui é deferente dos outro, / pois num deita, fica im pé, / cumecei
cum a suadera, / dismaiei, que vergonhera! / e acordei numa cadera / cherando
pó de rapé".