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A MOÇA DO TCC

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O ESTADO DE S. PAULO

12/11/2003

 


- Tô preocupada.

Me disse a moça sentada ao meu lado, num sofá que ela insiste que está imundo. Tô preocupada.

Eu, assistindo aos gols do domingo na televisão, não querendo me preocupar com mais nada, resmungo um  “que?”.

Resumindo, é mais ou menos o seguinte: esse negócio de tcc (trabalho de conclusão de curso) é igual tese. Não termina nunca, não se fala noutra coisa, o troço não sai da cabeça dela. Nem da minha.

Pois ela estava querendo me dizer que estava preocupada porque vai terminar o tcc no final de novembro e não vai ter mais com o que se preocupar em dezembro. Entendeu?

Mas olhe o detalhe. Ela estava preocupada em não ter o que se preocupar em dezembro. Só em dezembro. Porque a partir de janeiro ela já tinha algumas preocupações agendadas.

A preocupação de janeiro é se irá arrumar trabalho na temporada. Sim, eu moro numa ilha que tem temporada. E é na temporada que todo mundo trabalha e ganha dinheiro. Depois, vários meses, só tem que se preocupar com a temporada seguinte. Mas vai demorar pra chegar. Com o que se preocupar então?

Em fevereiro a preocupação dela é um lugar legal para morar. Me diz olhando – preocupantemente – de soslaio. (será que eu também vou ter que me preocupar com isso em fevereiro? Já com tantas outras preocupações agendadas para tal mês?)

Mas a moça aqui do lado já sabe que, em março, ela vai ter que se preocupar com o seu primeiro emprego com um diploma nas mãos. Ela vai dar aula de artes para crianças, que ela adora. Vide eu.

E ela conclui assim:

- Só depois de conseguir esse último item, ficarei sem preocupação por um bom tempo.

Entendeu a moral da história? Esta mulher que está aqui ao meu lado – me obrigando (sem perceber), inclusive, a escrever isso aqui – se tiver onde morar, onde trabalhar e um sofá, não tem com o que se preocupar. E eu posso garantir que o sofá está no Brasil. Numa ilha, mas numa ilha brasileira, catarinense.

Agora, você, que está me lendo aí em São Paulo ou Rio (e demais cidades que querem ser do primeiro mundo, sabe-se lá porque tamanho subdesenvolvimento), você, eu dizia: tu tá preocupada, neste exato momento com o quê?  Você está preocupado com uma guerra civil que está rolando ali na rua e tanto a imprensa como o governo insistem em dizer que é uma briga entre a polícia e os bandidos. Entre o bem e o mal. O bem, o estado. O mal, os traficantes.

Será que ninguém ainda percebeu que a briga é entre os excluídos e os incluídos? Traficar droga é uma forma de ganhar dinheiro. Ilícita e maléfica. Também acho. Mas o cara tá naquela porque não tem opção de emprego.

Eu vou parar por aqui, porque já estou virando comunista de novo. Como quando eu tinha a idade da moça que está preocupada com não ter o com que se preocupar em dezembro. E depois de março. São brasis diferentes.

O que eu queria dizer é que ainda tem uns lugares no Brasil onde deu certo. Nós somos maravilhosos. E acho que está chegando o dia em que a gente não vai mesmo ter com o que se preocupar a partir de março. Todos nós. Olhando o eclipse deitado na areia da praia. Sem ser assaltado ou mesmo assassinado.

E a moça preocupada me pergunta;

- Quanto foi o jogo do Figueirense?

- Venceu!