Fiquei impressionado com a quantidade de amantes da velha Lettera 22 que
me escreveram depois da crônica publicada aqui.
Primeiro, foi uma amiga a me lembrar da caixa da máquina de escrever, com
zíper. E zíper que funcionava. Era azul clarinha e acompanhava o design da
Lettera. Um verdadeiro luxo, na época.
Mas foi no sábado de noite, já madrugada de domingo, em São Paulo, no Bar
Balcão, que a melhor discussão se deu. Discussão no bom sentido, com o
arquiteto Marcelo Suzuki. Se eu me lembrava da máquina pelos textos que eu
escrevi nela, o designer Suzuki se lembrava muito mais por causa do braço
da mesma. Sim, antigamente se escrevia num instrumento que tinha um braço
do lado esquerdo, cuja função - assim que acionado - era passar para a
linha de baixo. Mas aquele braço ia andando para o lado esquerdo até
derrubar o copo da gente. Mas não era do copo que o Marcelo falava.
Comentava sobre o braço que era dobrado para dentro na hora de guardar a
máquina na sua caixa e fechar com zíper. Era isto que ficava na lembrava
do arquiteto: aquela engenhoca, o desenho do braço. O que mais
impressionava o arquiteto era essa calculada dobrada.
E também o Reinaldo Moraes, tantas vezes citado aqui na minha crônica (e
mais ainda na do Matthew Shirts) que me manda um e-mail dizendo que -
finalmente - seu romance A Órbita dos Caracóis estava saindo pela
Companhia das Letras. O importante no e-mail do Rei era dizer que o
romance começou a ser escrito há mais de dez anos - numa Lettera 22! - e
foi finalizado, é claro, num negócio chamado friamente de Pentium (que
mais parece marca de lâmina de barbear).
Entre a conversa com o Marcelo Suzuki e o e-mail do Reinaldo, fiz uma
pequena pesquisa sobre a saudosa e lendária maquininha. Seu desenho e
industrialização são de 1949 e o gênio italiano que a desenhou se chamava
Marcello Rizzoli. Morreu em 1967, antes de o seu invento ter sucumbido
diante dos macros micros.
Assunto da Lettera resolvido, caí de boca, óculos e cabeça nos caracóis do
Reinaldo que nos devia um livro desde 1981, quando cometeu o hoje já
clássico Tanto Faz, pela Brasiliense. Nestes 20 e poucos anos o Rei andou
por aí fazendo televisão, escrevendo para empresas e, principalmente,
lendo e traduzindo. Não sou nenhum crítico literário. Sou apenas amigo e
compadre do Reinaldo. Mas sou, sobretudo, um leitor quase voraz.
Apenas um pequeno intervalo para contar que conheci o Reinaldo num
longínquo 1981 (parece que foi ontem) quando ele bateu à minha porta,
cabeludo e barbudo, saindo da Getúlio Vargas (sim, o escriba administra
bem) carregado pelo amigo comum Nelsinho Motta Mello, com os originais do
Tanto Faz. Queria saber a minha opinião antes de publicar. Nunca tinha
visto o barbudo na vida. Estava me separando da minha mulher naquela época
e me apaixonei (o texto!!!) pelo Reinaldo e fui morar no mesmo prédio
dele, lá na Alagoas. De lá para cá, amigos e compadres de comes e bebes.
Muito mais bebes do que comes, como convém. E, desde então, sempre, depois
de uns goles, cobrava dele um novo romance. Era uma dívida dele com a
literatura brasileira e com o prazer da leitura.
Valeu, Reinaldo, esperar os 20 anos. Reinaldo (esqueçam que ele é meu
amigo e do Matthew) está com um texto afiadíssimo, daqueles que deslizam
tanto numa Lettera como numa tela do Windows. Seu texto é quase um design
como o do italiano Rizzoli. Um design que veio para ficar, para marcar
época.
É impossível esquecer a velha e boa Lettera. Como é impossível parar de
ler os caracóis da sua cabeça, Rei.