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A Lettera e os caracóis

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o estado de S. Paulo

25/06/2003

 


Fiquei impressionado com a quantidade de amantes da velha Lettera 22 que me escreveram depois da crônica publicada aqui.

Primeiro, foi uma amiga a me lembrar da caixa da máquina de escrever, com zíper. E zíper que funcionava. Era azul clarinha e acompanhava o design da Lettera. Um verdadeiro luxo, na época.

Mas foi no sábado de noite, já madrugada de domingo, em São Paulo, no Bar Balcão, que a melhor discussão se deu. Discussão no bom sentido, com o arquiteto Marcelo Suzuki. Se eu me lembrava da máquina pelos textos que eu escrevi nela, o designer Suzuki se lembrava muito mais por causa do braço da mesma. Sim, antigamente se escrevia num instrumento que tinha um braço do lado esquerdo, cuja função - assim que acionado - era passar para a linha de baixo. Mas aquele braço ia andando para o lado esquerdo até derrubar o copo da gente. Mas não era do copo que o Marcelo falava. Comentava sobre o braço que era dobrado para dentro na hora de guardar a máquina na sua caixa e fechar com zíper. Era isto que ficava na lembrava do arquiteto: aquela engenhoca, o desenho do braço. O que mais impressionava o arquiteto era essa calculada dobrada.

E também o Reinaldo Moraes, tantas vezes citado aqui na minha crônica (e mais ainda na do Matthew Shirts) que me manda um e-mail dizendo que - finalmente - seu romance A Órbita dos Caracóis estava saindo pela Companhia das Letras. O importante no e-mail do Rei era dizer que o romance começou a ser escrito há mais de dez anos - numa Lettera 22! - e foi finalizado, é claro, num negócio chamado friamente de Pentium (que mais parece marca de lâmina de barbear).

Entre a conversa com o Marcelo Suzuki e o e-mail do Reinaldo, fiz uma pequena pesquisa sobre a saudosa e lendária maquininha. Seu desenho e industrialização são de 1949 e o gênio italiano que a desenhou se chamava Marcello Rizzoli. Morreu em 1967, antes de o seu invento ter sucumbido diante dos macros micros.

Assunto da Lettera resolvido, caí de boca, óculos e cabeça nos caracóis do Reinaldo que nos devia um livro desde 1981, quando cometeu o hoje já clássico Tanto Faz, pela Brasiliense. Nestes 20 e poucos anos o Rei andou por aí fazendo televisão, escrevendo para empresas e, principalmente, lendo e traduzindo. Não sou nenhum crítico literário. Sou apenas amigo e compadre do Reinaldo. Mas sou, sobretudo, um leitor quase voraz.

Apenas um pequeno intervalo para contar que conheci o Reinaldo num longínquo 1981 (parece que foi ontem) quando ele bateu à minha porta, cabeludo e barbudo, saindo da Getúlio Vargas (sim, o escriba administra bem) carregado pelo amigo comum Nelsinho Motta Mello, com os originais do Tanto Faz. Queria saber a minha opinião antes de publicar. Nunca tinha visto o barbudo na vida. Estava me separando da minha mulher naquela época e me apaixonei (o texto!!!) pelo Reinaldo e fui morar no mesmo prédio dele, lá na Alagoas. De lá para cá, amigos e compadres de comes e bebes. Muito mais bebes do que comes, como convém. E, desde então, sempre, depois de uns goles, cobrava dele um novo romance. Era uma dívida dele com a literatura brasileira e com o prazer da leitura.

Valeu, Reinaldo, esperar os 20 anos. Reinaldo (esqueçam que ele é meu amigo e do Matthew) está com um texto afiadíssimo, daqueles que deslizam tanto numa Lettera como numa tela do Windows. Seu texto é quase um design como o do italiano Rizzoli. Um design que veio para ficar, para marcar época.

É impossível esquecer a velha e boa Lettera. Como é impossível parar de ler os caracóis da sua cabeça, Rei.