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O LAVOURA FECHOU

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O ESTADO DE S. PAULO

03/12/2003

 


O primeiro jornal que a gente lê, nunca esquece. O meu foi o Lavoura e Comércio, de Uberaba. E fiquei sabendo ago que o Lavoura fechou depois de exatos 104 anos, deixando de ser editado apenas 2 dias devido a uma greve de gráficos.
Tudo começou em 1899 quando produtores rurais fundaram o jornal para combater o governo mineiro por uma questão de fisco. Desde o começo do século vinte foi tocado pela mesma família Jardim.

Meu avô assinava o Lavoura, que chega depois do almoço, portanto já com as notícias da manhã de Uberaba, Brasil, e do mundo. O vizinho do meu avô era o Netinho, ou Ataliba Guaritá Neto, que fazia uma página inteira de coluna social. A página se chamava Observatório de Galileu. E eu adorava, ainda garoto, quando ele colocava meu nome lá.

Pois o Netinho, falecido recentemente, já velhinho, me influenciou tanto que eu comecei a escrever uma coluna social n’A Gazeta de Lins, aos 14 anos com o título Observatório de Newton. É, foi assim que tudo começou.

No Lavoura escreveram os dois maiores escritores da terra: Mario Palmério e Campos de Carvalho (publicava poemas duvidando da existência de Deus). Mas também o Santayanna, o meu tio Maurilo Moraes e Castro (excelente cronista com o pseudônimo de Montenegro), o meu amigo Carlos Eduardo de Andrade, falecido na semana passada em Cascais, Portugal, me grande anfitrião quando morei por lá.

“Se o Lavoura não deu é porque não aconteceu”, é mesmo um slogan inesquecível. Outra que eles sempre usavam quando um uberabense fazia sucesso nas cidades grande: “Uberaba está em Todas”.

E o jornal era daquele tempo que os garotos saiam pela cidade vendendo nas ruas para quem não era assinante. Aquilo era uma sinfonia: lavou... lavou... ó lavou! Era o Lavoura lido nos bares, nas praças ou até mesmo antes do filme começar no Cine Metrópole onde, naquele tempo, só se entrava de terno e gravata.

Fiquei triste com a morte do Lavoura. O Lavoura era mais ou menos um parente meu, um tio mais velho. Quando mudamos para Lins, começo dos anos 50, meu pai assinou o Lavoura e Comércio. Chegava com uma semana de atraso, mas nunca deixou de chegar. O Obituário era a primeira sessão a ser lida. Depois as notícias do glorioso Uberaba Sport Club.
Na frente do prédio, na Rua Vigário Silva, 45, sede tão centenária quanto o jornal, as pessoas passavam para ler as manchetes do jornal do dia numa tabuleta pendurada na janela. Uma tradição eterna.

Talvez se não fosse pelo Lavoura, Mario Palmério e Campos de Carvalho não virassem dois dos mais importantes brasileiros. Talvez se não fossem mas minhas leituras, ainda menino, também não estaria hoje aqui no Estadão falando de um jornal de a maioria de vocês nunca ouviu falar.

Para mim é um orgulho a cidade onde nasci e passei todos as minhas férias ter tido um jornal que durou mais de um século.
Obrigado Quintiliano, Murilo, Netinho. Vocês ilustraram quatro gerações, você mantiveram a cidade vida na minha memória.
O nome não é de jornal (Lavoura e Comércio) mas a alma era.