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A Gorette e o bombeiro de Sorocaba

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o estado de s. paulo

29/05/2002

 


A Gorette é a minha diarista em São Paulo. E já há alguns anos. Tem quase 50 anos, bem menos que 1,50 m. Conheço a Gorette há 25 anos. Morávamos eu, Marta e nossos filhos na Rua Bryaxis, em frente ao professor Antonio Candido e dona Gilda de Melo e Sousa.

E foram eles, dois dos maiores intelectuais das letras brasileiras, quem nos introduziram a Gorette. E ela nunca mais deixou a nossa família. Trabalha até hoje na casa do professor, na casa da Marta, na do meu filho Antonio e, já disse, aqui em casa. O mais incrível de tudo isso é que a competente, calada e perfeita Gorette, apesar de trabalhar semanalmente para seis escritores (Antonio Candido, dona Gilda, Marta Góes (e seu marido Nirlando Beirão), Antonio e eu, não é chegada às letras com a mesma presteza que domina limpezas e passa uma roupa.

Vive cercada de livros por todos os cômodos e cuida deles com o carinho que deve ter aprendido na casa do nosso intelectual maior, o primeiro Antonio. Não me lembro de nunca ter faltado ao serviço. Com nossas diárias criou uma filha e hoje já é avó. Mas continua com seu pique ligeiro. Se homem fosse, teria dado um excelente ponta-direita. Enfim, a Gorette é perfeita. Há 20 e tantos anos trabalhando conosco, jamais contou qualquer caso da casa de um para a casa do outro. Discretíssima, às vezes sisuda, mas sempre perfeita. Tudo bem que trabalhando na casa de tantos intelectuais tenha lá sua simpatia pelo Maluf. Tudo bem que, rodeada de livros, nunca tenha lido nenhum deles. Mas sabe que quando estamos no computador, estamos trabalhando e pede licença para reclamar que o sabão em pó acabou.

A Gorette deixa a casa tão arrumada - tem mania de simetria de almofadas, objetos cubisticamente organizados - que, quando ela termina o serviço e vai embora, eu costumo desarrumar um pouco o ambiente. Tanta perfeição dá um certo ar feminino nas minhas desarrumadas vidas e vivências.

Teria aqui dezenas, centenas de histórias pra contar da Gorette, há tantos anos nos ajudando. É mesmo uma figuraça. E você deve estar perguntando: mas o que é que eu tenho a ver com a empregada do cara? Pois é. Então, vamos lá.

Minha santa Maria Gorette está sendo processada. Gorette está com medo. Gorette pode ser condenada. Aqueles outros que eu sempre cito aqui, não estão sendo processados, não vão ser condenados e - muito menos - estão com medo. Mas a Gorette entrou numa fria. Cáspite!, diria o mestre Antonio Candido.

Tudo começou quando ela resolveu comprar um celular, há uns dois anos e meio. Claro que ela não iria se dar bem com aquela geringonça, aquela modernidade toda. Alguns meses depois, resolveu vender o falado cujo. E pediu ao seu genro, que é soldado do nosso glorioso Corpo de Bombeiros, que negociasse aquele aparelho diabólico. O genro vendeu para um outro bombeiro. R$ 550, que era o preço de um celular, naquela época. E o assunto acabou aí.

Um ano e meio depois (repito: um ano e meio depois) o bombeiro comprador resolveu devolver o celular para a Gorette dizendo que não estava mais funcionando. E queria que ela também devolvesse os 550, mais juros e correção monetária. Claro que ela não devolveu dinheiro algum.

Pois bem, o miliciano entrou na Justiça lá em Sorocaba contra o genro e ela. E agora, o juiz de Sorocaba deu ganho de causa para o bombeiro. Bomba, bomba! E quer que os réus paguem (prepare seu coração) R$ 6 mil ao elemento, por causa dos tais juros, correção monetária e outras mumunhas mais da complexa legislação brasileira quando se trata dos humildes. Um celular hoje custa R$ 300. O juiz de Sorocaba quer que ela dê o equivalente a 20 celulares para o bombeiro! Bomba, bomba!

Você acredita nisso? É assim que o Brasil faz justiça.

Senhor juiz, deixa esse negócio de lado, manda o bombeiro me ligar que eu dou um celular novinho para ele (desde que ele não me devolva um ano e meio depois). E quanto ao nosso glorioso Corpo de Bombeiros, que o comandante dê um puxão de orelha nesse miliciano. E que ele vá apagar outros fogos e salvar outras vidas necessitadas. E deixem a Gorette e seu genro em paz, na simetria de sua honestidade, no zelo pelos novos livros e na competência de sua profissão.

Como diria a Gorette: cruz credo!