A Gorette é a minha diarista em São Paulo. E já há
alguns anos. Tem quase 50 anos, bem menos que 1,50 m. Conheço a Gorette há
25 anos. Morávamos eu, Marta e nossos filhos na Rua Bryaxis, em frente ao
professor Antonio Candido e dona Gilda de Melo e Sousa.
E foram eles, dois dos maiores intelectuais das
letras brasileiras, quem nos introduziram a Gorette. E ela nunca mais
deixou a nossa família. Trabalha até hoje na casa do professor, na casa da
Marta, na do meu filho Antonio e, já disse, aqui em casa. O mais incrível
de tudo isso é que a competente, calada e perfeita Gorette, apesar de
trabalhar semanalmente para seis escritores (Antonio Candido, dona Gilda,
Marta Góes (e seu marido Nirlando Beirão), Antonio e eu, não é chegada às
letras com a mesma presteza que domina limpezas e passa uma roupa.
Vive cercada de livros por todos os cômodos e cuida
deles com o carinho que deve ter aprendido na casa do nosso intelectual
maior, o primeiro Antonio. Não me lembro de nunca ter faltado ao serviço.
Com nossas diárias criou uma filha e hoje já é avó. Mas continua com seu
pique ligeiro. Se homem fosse, teria dado um excelente ponta-direita.
Enfim, a Gorette é perfeita. Há 20 e tantos anos trabalhando conosco,
jamais contou qualquer caso da casa de um para a casa do outro.
Discretíssima, às vezes sisuda, mas sempre perfeita. Tudo bem que
trabalhando na casa de tantos intelectuais tenha lá sua simpatia pelo
Maluf. Tudo bem que, rodeada de livros, nunca tenha lido nenhum deles. Mas
sabe que quando estamos no computador, estamos trabalhando e pede licença
para reclamar que o sabão em pó acabou.
A Gorette deixa a casa tão arrumada - tem mania de
simetria de almofadas, objetos cubisticamente organizados - que, quando
ela termina o serviço e vai embora, eu costumo desarrumar um pouco o
ambiente. Tanta perfeição dá um certo ar feminino nas minhas desarrumadas
vidas e vivências.
Teria aqui dezenas, centenas de histórias pra contar
da Gorette, há tantos anos nos ajudando. É mesmo uma figuraça. E você deve
estar perguntando: mas o que é que eu tenho a ver com a empregada do cara?
Pois é. Então, vamos lá.
Minha santa Maria Gorette está sendo processada.
Gorette está com medo. Gorette pode ser condenada. Aqueles outros que eu
sempre cito aqui, não estão sendo processados, não vão ser condenados e -
muito menos - estão com medo. Mas a Gorette entrou numa fria. Cáspite!,
diria o mestre Antonio Candido.
Tudo começou quando ela resolveu comprar um celular,
há uns dois anos e meio. Claro que ela não iria se dar bem com aquela
geringonça, aquela modernidade toda. Alguns meses depois, resolveu vender
o falado cujo. E pediu ao seu genro, que é soldado do nosso glorioso Corpo
de Bombeiros, que negociasse aquele aparelho diabólico. O genro vendeu
para um outro bombeiro. R$ 550, que era o preço de um celular, naquela
época. E o assunto acabou aí.
Um ano e meio depois (repito: um ano e meio depois) o
bombeiro comprador resolveu devolver o celular para a Gorette dizendo que
não estava mais funcionando. E queria que ela também devolvesse os 550,
mais juros e correção monetária. Claro que ela não devolveu dinheiro
algum.
Pois bem, o miliciano entrou na Justiça lá em
Sorocaba contra o genro e ela. E agora, o juiz de Sorocaba deu ganho de
causa para o bombeiro. Bomba, bomba! E quer que os réus paguem (prepare
seu coração) R$ 6 mil ao elemento, por causa dos tais juros, correção
monetária e outras mumunhas mais da complexa legislação brasileira quando
se trata dos humildes. Um celular hoje custa R$ 300. O juiz de Sorocaba
quer que ela dê o equivalente a 20 celulares para o bombeiro! Bomba,
bomba!
Você acredita nisso? É assim que o Brasil faz
justiça.
Senhor juiz, deixa esse negócio de lado, manda o
bombeiro me ligar que eu dou um celular novinho para ele (desde que ele
não me devolva um ano e meio depois). E quanto ao nosso glorioso Corpo de
Bombeiros, que o comandante dê um puxão de orelha nesse miliciano. E que
ele vá apagar outros fogos e salvar outras vidas necessitadas. E deixem a
Gorette e seu genro em paz, na simetria de sua honestidade, no zelo pelos
novos livros e na competência de sua profissão.
Como diria a Gorette: cruz credo!