Estou no domingo e acabo de ver o Guga, o Guga da Ilha, vencer um
torneio de tênis lá na Bahia. Cinqüenta graus na quadra, uma luta
danada. No terceiro e decisivo set (a negra, como se dizia antigamente e
eu nunca entendi o porquê da "negra") o nosso herói catarinense se
atrapalhou e o argentino (sempre eles, os argentinos) passou à frente.
Tudo parecia perdido. Mas um sábio câmera do Sportv descobriu lá no meio
da arquibancada uma baiana fazendo figas com as duas mãos. Um close na
figa. Um close demorado. Nem mostrou o rosto da moça, apenas as mãos. Um
bela duma figa.
Para quem não sabe o que é fazer figa (ou seria figas?), é
colocar o dedão entre o indicador e o dedo médio. E apertar os dedos,
torcendo, fazendo figas, suando, tendo fé. Há muitos anos que eu não via
alguém fazendo figa.
Para falar a verdade havia até me esquecido dela. Era uma
coisa lá da minha infância.
Mas, dizia eu, quando vi ali na tela, em close, a figa,
relaxei: o Guga ia virar aquele jogo e ganhar. Não deu outra, eu tinha
certeza. Não quero desmerecer o trabalho imenso que o jogador e seu
treinador tiveram por meses a fio para ele chegar ao título. Não quero
tirar o mérito do Guga que está voltando a jogar como antes da maldita
operação. Mas, pra mim, foi a figa daquela anônima baiana a grande
jogada de mestre.
E foi um achado para mim, pois estava assistindo ao jogo e
sabendo que teria que escrever a crônica depois. E - confesso - ainda
não tinha o mote, a idéia para a quarta-feira. Quando vi a figa, tive a
certeza da vitória e da crônica.
E o que é que uma figa tem a ver com uma crônica, pensará
a leitora atenta?
Tem muito, minha senhora, pois me levou para a infância e
adolescência e me fez lembrar quantas e quantas figas eu já havia feito
vida afora e vida a dentro. No exame oral, por exemplo, a gente tinha
que enfiar a mão num saquinho e sortear um número que correspondia à
matéria a ser (desculpe a palavra) argüida. Tirava com uma mão e fazia
figa com a outra, pra sair ponto fácil.
Me lembro ainda nos festivais de música da Record, fazendo
figa para o Chico ganhar com a Banda, garoto ainda, no meio da
estudantada lá no Teatro Paramount. Mas fui me esquecendo dela. Não me
lembro, lá em Los Angeles, na hora que o Baggio foi bater aquele
pênalti, de ter feito uma figa. Talvez tenha sido até melhor.
Mas hoje, domingão ensolarado na Bahia e em quase todo o
Brasil, a figa me voltou e em close. E, como a figa, quantos trejeitos
manuais não foram sumindo da nossa vida? Poderia enumerar aqui uma
dezena deles.
Um exemplo é o da ponta da orelha. Para se dizer que uma
coisa era ótima, bastava dar um puxãozinho na orelha. Uma balançadinha.
Aquilo era ótimo.
Economizava palavras. Sim, antigamente os gestos
significavam muito mais do que hoje. Hoje, praticamente só usamos os
gestos com as mãos para ofender, xingar. Incorporamos até alguns
modismos dedais com os americanos que ficam mandando todo mundo tomar OK.
Na melhor das hipóteses hoje usamos os dedos para fazer um sinal de
positivo ou negativo.
Para dizer que um sujeito era doido, bastava girar o
indicador em torno do ouvido. Nunca soube e nunca perguntei porque girar
o dedo em torno do ouvido significasse que o cidadão era doido. De onde
teria vindo o gesto? De algum doido, com certeza.
Você aí, que tem mais de 50 anos, pode ficar agora a
lembrar quantos gestos bonitos a gente fazia com a mão, com os dedos.
Sim, porque os mais jovens só usam esta parte do corpo para agredir,
para ofender. E a mão foi feita para o aperto de mãos, para o aceno de
adeus, para um tapinha nas costas, para uma cocegazinha no umbigo, para
o aliso do cabelo da pessoa amada, para indicar a lua cheia.
E, é claro, para se fazer uma figa para recebermos, mais
uma vez, o nosso menino Guga como campeão. Campeão da figa, campeão da
Bahia de tantas macumbas e gente boa.
Resultado, acabei almoçando quase na hora de jantar.
Tudo
bem, o Bob e a Marisa
são
amigos
também da Suzana e do Jabor
que convidam
para
seus
maravilhosos
almoços "ali
pelas 3". O
que significa
que a
gente come
lá pelas 6 e
meia.
Aliás, almoça-se
muito
bem na
casa dos
dois. O José
Serra
que o diga.
O futebol que antes era - no máximo - às 9 horas agora é,
por imposição da dona Globo, às 15 para as 10 da noite. O que eu sinto é
que as pessoas em São Paulo estão querendo fugir do dia. Preferem, cada
vez mais, viver à noite. Quanto mais noite, mais in. O que é que os
paulistanos de hoje têm contra o dia e o sol?
Estou escrevendo tudo isso porque estou arrependidíssimo
de não ter ido à festa no sábado. Não fui de birra mesmo. Deixei de ver
todos os meus amigos e amigas que estavam lá. Inclusive a Suzana que
deve ter jantado lá pela uma da manhã, quando eu já estava dormindo.
Marisa e Bob, devo uma presença para vocês. Mas fica aqui
os meus parabéns, votos de muita felicidade e a esperança de que no ano
que vem a gente se veja mais cedo.
Ou então, no dia da festa de vocês eu marco uma outra na
minha casa, das 8 às 11, para todos nós fazermos hora juntos. Já que os
nossos amigos são os mesmos. Aliás, cá entre nós, Bob e Marisa, temos os
melhores amigos e amigas da cidade. Um bando de maravilhosos boêmios.