Se alguém te convida para uma festa e, ao explicar o endereço, pergunta:
- Sabe a
estátua do Borba Gato?
Já dá o
desânimo. Tem a volta. Mas, além da distância, a gente tem que se submeter a ver
duas vezes (duas!) a estátua do Borba Gato. Eu, pelo menos, levo algumas horas
para me recuperar do susto, do pasmo.
O mais
interessante é que o brasileiro não é muito dado a estátuas. Mas fico cá a
pensar se os nossos políticos e homens de negócio de hoje terão alguma estátua
daqui a trezentos anos. Talvez não de pastilhas, mas de acrílico.
E o que foi
que o Borba Gato fez de tão importante assim para ter uma estátua daquele
tamanho? Fez mais ou menos os que os nossos políticos de hoje fazem. Inclusive,
era genro. Sim, genro do Fernão Dias (a rodovia!) que também não era flor que se
cheirasse.
O Borba, ora
o Borba. Qual Hildebrando Rato, Borba Gato - dizem - andou matando umas pessoas
(fora milhares de índios, que não eram considerados pessoas). Isso foi lá por
1.650. Contam que, ao voltar para casa, depois de ficar 20 anos escondido no
sertão, não foi nem reconhecido pela mulher dele. Era acusado de homicídios. O
sogro, o Fernão, não deve ter gostado. Não sei se a mulher dele foi para a
televisão contar as maracutaias e nem escondeu as vergonhas com a nossa
bandeira. Afinal, eram bandeirantes.
Enquanto o
cara estava escondido lá no sertão das Minas Gerais, descobriu ouro, muito ouro
na região de Sabará. Por causa disso, virou gente fina, o rei o perdoou e ele
foi nomeado Guarda-Mor do distrito do rio das Velhas. Vinte por cento e não se
fala mais nisso. Mais tarde virou superintendente das minas. Se viesse para São
Paulo, teria tudo para ser prefeito. Vereador, então, com um pé nas costas.
Fez carreira,
o danadinho. Ganhou terras do governo, matou tudo quanto era índio que aparecia
por lá. Dizimou tribos, com aquela mesma espingarda que ele ostenta lá em Santo
Amaro.
Emprestava
dinheiro aos políticos. Em troca, ganhava terras. Fundou Sabará. Teve um cargo
que a minha ignorância em estátuas me impede de entender: foi Provedor de
Defuntos e Ausentes. Céus, que cargo deveria ser este? Não vou começar a
imaginar, pois jamais acabaria essa crônica.
E vejam que
inacreditável: como Juiz Ordinário (a palavra é essa mesmo) reprimiu o
contrabando, impedindo assim o desvio de ouro para a Bahia, hoje de Antonio
Carlos Magalhães.
É, o cara
merecia mesmo uma estátua. Como o ACM terá sua, no futuro. Não de pastilha, mas
de chumbo grosso.
O Borba, já
disse, era genro do Fernão Dias. Uma espécie de Ricardo Teixeira. O Fernão era
um homem íntegro. Um filho dele, chamado José, cunhado do Borba, portanto,
conspirou contra ele. O que fez o Fernão Dias? Mandou enforcar o filho como
exemplo para os seus funcionários. Vou repetir porque o texto tá meio confuso:
Fernão Dias enforcou o filho.
O mais
célebre feito dele foi o que se chamou de "Bandeira das Esmeraldas". Só que as
esmeraldas que ele achou não eram esmeraldas. Eram turmalinas. Mas fez a cama.
E virou
vereador em São Paulo. Dizem que teve vários cargos na câmara. Na época, chegou
a ser considerado o homem mais rico de São Paulo. E, quando ameaçado por alguma
CPI do século 17, dizia que a sua fortuna vinha do casamento dele com dona Maria
Garcia Betim. Aliás, quando se casou, era 34 anos mais velho do que ela.
Quando não
estava nos braços ricos da Maria, partia para o sul e ia matando índios onde é
hoje Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Quando os
holandeses ameaçaram entre no Brasil pelo sul, ele foi o primeiro a se
apresentar e matar os gringos. Não queria capital estrangeiro por aqui.
Isso tudo é
muito triste. Hoje são heróis, são estátuas, são rodovias. Mais triste ainda é
pensar que há trezentos anos, o Brasil admira e enaltece esse tipo de bandido.
E esses
bandidos de hoje, serão estátuas e rodovias amanhã. E eu e você que nunca
matamos índios, nunca enforcamos filhos, nunca roubamos ninguém, nunca fomos
vereadores, nunca dormimos com meninas 34 anos mais jovens, nunca sonegamos,
seremos o que?
Não sei. Só
sei de uma coisa. Nenhum de nós dois será uma estátua feia. Já é alguma coisa.
Ou não?