Implico com essas senhoras que chamam empregada
doméstica de minha secretária. Por que a hipocrisia? Qual a vergonha de
ser empregada? Mesmo porque, diante de várias profissões que existem por
aí, andam ganhando bem. No que eu acho justo. Não é moleza o trabalho
delas.
Estou escrevendo isto porque fui agora ao meu quarto
(a dona Lurdes acabou de sair) e vi - o que temia - mais uma vez. Ela
coloca os três travesseiros (sim, gosto de três) bem no centro da cama,
formando um triângulo no meio deles. Não sei se é moda aqui no Sul,
cafonice ou uma obra de arte dessas chamadas (como é mesmo o nome
daquilo?) instalação. Minha prima Isabela Prata iria adorar.
O problema é que eu não consigo dizer a ela que não é
assim que eu gosto. Este é o meu grande problema com as empregadas.
Primeiro, porque ficam aqui dentro, zanzando. E nenhuma delas jamais
pensou na possibilidade de que, enquanto digito no computador, estou a
trabalhar. Devem achar que eu não faço nada na vida. E puxam assunto.
Geralmente sobre algum problema dos filhos.
Já tive grandes e inesquecíveis empregadas. Mesmo
agora, a de São Paulo, por exemplo. Chama-se Gorette, tem um metro e meio,
não come e assovia. E é eficientíssima. Divide a semana entre a casa do
professor Antonio Candido (doutor em literatura) e dona Gilda (escritora)
na segunda-feira, há 25 anos. Na terça, vai na casa da Marta Góes
(jornalista e escritora) e Nirlando Beirão (jornalista e escritor), há 22
anos. Na quarta, dá um trato na vilinha do Antonio Prata (escritor), há
quatro anos. E, na quinta, vai à minha. E é analfabeta.
Nunca conversei a respeito com a Gorette, mas deve
achar que só trabalha para vagabundo. Creio que não, pois tem alma boa e
jamais pensaria uma coisa dessas. Depois que a Gorette sai da minha casa,
eu tenho que desarrumar um pouco as coisas. Ela tem mania de
simetricalidade. Coloca as almofadas todas enviesadas, numa seqüência
lógica e degradê. Celibatário, olho para aquilo e imagino que alguém pode
ver e achar tratar-se de um velho homossexual. Mas a Gorette é perfeita. E
sei que ela não vai ler isto aqui. Uma pena.
Já a dona Doca - anos 80 - implicava porque eu queria
tudo direitinho. Tudo no seu lugar (e quando elas resolvem guardar as
coisas?) E me dizia: ah, seu Mario, o senhor é tão sistemáááááático! Um
dia foi presa dentro de um ônibus com 200 gramas de maconha enfiada no
peito. Quem diria, a dona Doca, quase avó. E ela jurou, na delegacia:
- Nunca vi essa mercadoria! Nunca! Não sei como foi
parar nos meus peitos. Mas a melhor história que eu conheço de empregada
foi com a jovem e espevitadíssima Sula, sempre de minissaia (como convinha
naquele começo dos 70) e que trabalhava na casa do Samir Curi Meserani,
mestre de todos nós.
Acho que já escrevi o caso em algum lugar, mas vamos
lá: o Vinícius de Moraes era hóspede no apartamento do Samir. Um belo dia,
3 da tarde, e Sula pede ao seu Vinícius:
- Seu Vinícius, o senhor poderia me acompanhar até a
janela da sala?
O poetinha sem ter noção do por quê, consentiu.
Chegaram os dois e ela colocou o braço no ombro do compositor e deu um
tchau geral para as 28 empregadas domésticas que estavam nas áreas de
serviço no prédio vizinho.
Ou seja, ela havia contado para todo mundo da
vizinhança que estava namorando o Vinícius de Moraes. E, pra quem duvidou,
teria dito:
- Pois amanhã, 3 da tarde, em ponto, vou aparecer na
janela com ele. É só ficar de olho!
Dito e feito.
E a Marisa?, que eu mandei ela limpar todos os livros
da biblioteca. E ela limpou. De cara feia, mas limpou. Quando eu cheguei
em casa estavam limpos. Só que ela havia colocado todos os livros por
tamanho (altura) nas estantes. Aquilo parecia prédio de fábrica antiga.
Sabe como? E assim ficou por muitos anos e eu fui aprendendo a achar o que
eu queria. Principalmente aqueles grandões, ditos de arte.
E, para encerrar, a de uma amiga minha. Primeiro dia
de trabalho da empregada - isso foi há muitos anos -, o casal voltando
para casa de noite e, já do elevador, ouvindo o telefone a tocar, a tocar,
e a empregada a gritar:
- Já disse que saíram! Já disse que saíram!!!
No Imposto de Renda, já consta empregada doméstica
como profissão. Já escritor...
Morro de inveja delas. São reconhecidas como
trabalhadoras necessárias e honestas.