Era
uma vez a dona Felicidade, o seu Manuel e os dois filhos Toninho e Serginho.
Tinham uma pequena quitanda no final da avenida Pompéia. Todo dia a dona
Felicidade tinha que subir dois andares (a quitanda era embaixo do apartamento
deles) para preparar o almoço e a janta. Subia e descia aquelas escadas todas,
quase que o dia inteiro. Cozinhava bem, a portuguesa.
Até que um
dia um filho sugeriu que ela trouxesse o fogão para baixo. Deu certo. Mas um
velhinho aposentado passava por ali, sentiu aquele cheirinho de comida caseira e
perguntou se não podia fazer uma boquinha. Mas nem mesa temos. Eu sou
marceneiro, disse. Fez a mesinha e um banquinho. Mas comia com o pé para fora.
Um dia ele
chegou para comer e tinha outro velhinho na mesa dele. Começava, naquele
momento um dos maiores sucessos gastronômicos de São Paulo. Era o Pé Prafora.
Por ali passavam quase que diariamente o Angeli,
o Laerte, Glauco, Caruso, Jaguar, Rai, Reinaldo
Moraes, Candinho, Aldemir Martins, Airton Soares, Sergio
Antunes (que poetava: “tragam talheres, vai ter mulheres”) entre outros.
Um dia fomos
informados que a família (agora já sem o seu Manuel, que Deus o tem) vendera o
boteco com seus vinhos e seus bolinhos de bacalhau. Mas a tristeza durou pouco.
O trio
Felicidade, Toninho e Serginho abriu um outro restaurante. Agora come-se com o pé
para dentro. O lugar se chama Dona Felicidade e fica na Tito, 21.
Na festa de
inauguração o seu Manuel desceu do céu para confirmar que o que ele tinha
plantado anos atrás, agora era um sucesso.
Se você está
achando que isso aqui é uma publicidade, acertou. Mas não do novo e belo e
gostoso local. Mas sim a publicidade deste trio maravilhoso. Gente boa e honesta
está ali. Assim como a bebida e a comida.
Conheci o Izaías
Almada há quase trinta anos. Ele era um promissor ator do teatro de Arena,
casado com a musa da MPB Marilia Medalha e rabiscava algumas páginas.
O tempo
passou, o Izaías andou sendo preso por motivos óbvios (para a época), deu a
volta por cima e se ligou na publicidade. Tem até um anúncio na televisão de
uma margarina onde ele é o chefe da família e conversa com o cachorro. Um de
barba, lembra? Não o cachorro, mas ele mesmo.
Mas eu dizia
que ele escrevia. Publicou seu primeiro romance há uns anos e eu não li porque
impliquei com o título: Metade Arrancada de Mim. Achei que devia estar ainda
rancoroso com o nosso passado político. Depois veio outro que se chamava O Medo
Por Trás das Janelas.
Mas agora ele
publicou um livro de contos e pediu para eu fazer o prefácio. Isso depois de
morarmos uma temporada em Portugal, onde a amizade se consolidou.
Não pude
fazer o prefácio por motivos que não cabem aqui. Mas ele me ligou humildemente
pedindo para eu entregar um exemplar no Caderno 2 e batalhar uma resenha.
Pois foi na
mesa do Pé Prafora (um dia antes de inaugurar o Dona Felicidade) que eu li e
reli o livro nunca sentada só. Resolvi não dar para ninguém resenhar o que eu
poderia e adoraria fazer. Fiquei simplesmente de queixo caído, babando JB.
Adorei não
por amizade, mas por paixão mesmo. O livro se chama Memórias Afetivas (o Izaías
nunca foi bom de título) e são nove contos simplesmente magistrais, todos
passados num passado mineiro. Uma pequena obra-prima, sem tirar nem por.
Izaías volta
ao seu passado mineiro. Sua infância e sua adolescência. A primeira experiência
(que lembra Italo Calvino), as primeiras revoltas. Sexo,
religião e rock and roll.
Izaías
Almada, filho de portugueses como a turma do Dona Felicidade (será que ele
conheceu a cidade de Almada, pertinho de Lisboa?), criado e malcriado em Belo
Horizonte, esqueceu o seu passado político para mergulhar num passado muito
mais bonito e encantador da sua própria vida. Tudo parece ser realidade,
arrancava de estranhas entranhas.
Publicidade
do livro? Pode ser. A editora se chama Mania de Livro. Mas a publicidade aqui é
mesmo para o meu velho Izaías que, a partir de agora, se universaliza saindo de
sua aldeia para mundo, como diria o velho russo Tostoi.
Que o Izaías
não perca a mania de escrever e que eu possa sempre lhe escrever um pósfacio
como este.
De barriga e
cabeça feita.
PS - Um dos
contos do Izaías se chama Felicidade.