Não existe nada mais antigo que a tal da
concepção de Esquerda e Direita para os nossos políticos. Em primeiro lugar, porque é
difícil saber hoje em dia, no Brasil, quem está de que lado. Tem gente chutando com as
duas, jogando no meio de campo, atacando e se defendendo como podem. Em segundo lugar,
porque os políticos brasileiros poderiam ser divididos em outras categorias, mais de
acordo com eles mesmos. Corruptos e não-corruptos, honestos ou desonestos, coerentes ou
incoerentes e outros adjetivos. Masturbadores ou platônicos. Mesmo porque, no plenário,
ninguém se conserva nem à Direita, nem à Esquerda (como na conservadora Inglaterra) e
sim, embolados lá na frente, numa gritaria de campos de futebol em jogo de clássico. Sai
até porrada. Com a (mão) Direita ou com a Esquerda, sem nada de ideológico nisso.
Mas é sempre interessante pensar sobre a Esquerda e
a Direita, nos dias de hoje.
Vocês já notaram que quem trabalha mesmo é a
Direita e a Esquerda fica sempre na dela, na maciota? Às vezes levando a fama, às vezes
CUTucando com a vara curta?
E não é de hoje. Observem uma pessoa a tirar água
num poço. Quem fica girando a manivela do sarilho é a Direita. A Esquerda fica apenas
alisando a corda, numa boa.
Quem é que penteia o cabelo? A Direita. A Esquerda
fica numa coadjuvância, dando uns tapinhas, armando um possível topete. Aliás, a
Esquerda sempre curtiu um certo topete.
Quem é que dirige o carro? É a mão Direita.
Manobras, câmbio. A mão Esquerda fica encostada na janela, relaxada, tomando um
solzinho. E a perna Esquerda que apenas empurra a embreagem? Quem trabalha mesmo é a
Direita, que acelera, que freia. Hoje em dia, nos países do primeiro mundo, com a
invenção do carro hidramático, suprimiram de vez a função da Esquerda. Nos EUA a
Direita é quem faz tudo.
Até na masturbação, a Direita trabalha muito
mais. A Esquerda, no máximo segura a Playboy tremulamente.
Quem é que pisca? A vista Direita. Enquanto a
Direita se esforça para ficar se abrindo e fechando, a Esquerda fica de olho arregalado,
na paquera, talvez. Tem gente que pisca com a Esquerda também, mas é muito mais
complicado.
Na hora da impressão digital, as autoridades exigem
o dedão da Direita, que fica todo sujo. Neste caso, depois, a Direita ajuda na limpeza da
sujeira.
E quando fazemos o sinal da cruz com a Direita, a
Esquerda fica na dela para, apenas no final, juntar as palmas das mãos, como que
agradecendo o trabalho da outra, a Direita. E por falar nisso, de que lado estava o Bom
Ladrão? À direita ou à esquerda de Cristo?
No jogo do baralho então é impressionante. A
Direita tem que comprar as cartas, descartar, fumar o cigarro, pegar o copo, criar climas.
E a Esquerda? Fica o tempo todo na dela, apoiada no cotovelo, segurando as cartas, como se
nem estivesse ali, esperando que a Direita introduza ali a carta certa, a boa, a da vez.
O próprio Aurélio, que a gente folheia com a
Direita, diz que o canhoto é o "inábil, desajeitado, desastrado", não
poupando elogios para o verbete destreza: "habilidade, aptidão, sagacidade,
astúcia". Fecha-se o dicionário com a Esquerda.
Tudo isso foi resultado de um papo de bar com o meu
amigo e excelente ator Norival Rizzo, noites dessas, no Domani. Mas, ao terminarmos toda
essa elucubração, segurando ainda os copos com as Direitas, nos lembramos do perigo da
extrema Direita (vide Oklahoma) e constatamos felizes que tanto o coração dele, como o
meu e como o seu estão na Esquerda. Já é alguma coisa direita.