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A crônica volta

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o estado de s. paulo

13/09/2000

 


Sempre me fazem a pergunta:

- Quais os escritores que te influenciaram?

E se espantam um pouco quando digo que não foram nem os russos do século passado, nem os franceses do século passado, nem os ingleses do século passado, nem os portugueses do século passado. E muito menos os brasileiros do século passado.

Visto assim, o século passado deve ter sido mesmo o século da literatura. E foi. Pras negas dele.

(Já percebeu que estou sem assunto, né?) É que foram os cronistas brasileiros deste século que mais me marcaram.

Também, pudera. Veja o time que entrava toda semana na minha casa. Na revista Manchete tinha o Paulo Mendes Campos, o Henrique Pongetti, o Fernando Sabino e, como se não bastasse, o Rubem Braga, nosso cronista maior. E tudo menino, jovem, cronicando lá do Rio.

O Cruzeiro não ficava atrás e nos mandava o Millôr Fernandes. Isso era semanal. E no dia-a-dia, a Última Hora (do Samuel Wainer) tinha a competência do Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta), o Nélson Rodrigues e ainda o kaos do Jorge Mautner, menino, menino.

Impossível não virar cronista.

Depois a crônica andou meio sumida dos jornais. Até receitas e poemas do Camões davam mais ibope. Os jornais ficaram sérios, compenetrados, sem espaço para bobagens vãs de crônicos cronistas.

(Fico aqui a pensar o que faziam todos esses que eu citei, quando dava o branco numa manhã quase primaveril).

E a crônica, pouco a pouco foi voltando para a imprensa brasileira. Estava pensando nisso ao receber uma carta do Jorge da Cunha Lima, diretor da tevê Cultura, me convidando (e a outros cronistas) para escrever crônica para a televisão. É, vamos ser mensurados pelo ibope pra valer.

Outra coisa: os leitores estão todos se arvorando em cronistas. Me mandam tantas que resolvi fazer um concurso de crônicas lá no site onde estou escrevendo um livro on-line (www.marioprataonline.com.br). Fiquei surpreso com a resposta. Toda semana vamos selecionar uma e em novembro dar um prêmio de mil e quinhentos reais para a melhor. (Mais informações no site).

Ou seja (era aqui que eu queria chegar): o Brasil está cronicando como nunca. Está escrevendo crônicas. E lendo. E por quê? Porque o jornal ficou pesado. E ficou pesado porque o mundo está pesado. E aí o leitor resolve ler uma crônica para aliviar a dor da leitura. Mesmo que seja uma como esta, completamente qualquer nota. Como, aliás, deve ser uma crônica.

E a crônica tem uma vantagem sobre tudo e todos: tudo dá crônica. Tudo. E sua característica: quanto mais você escreve sobre o nada, mais você atinge o tudo. Quando escrevo aqui sobre o quebra-vento dos carros que não existe mais, o público delira. Quando descrevo a compra de um colchão, todo mundo se identifica. Nisso está a beleza da crônica. No nada. No livre pensar, como sempre diz o mestre Millôr.

E se tantas e tantos cronistas estão surgindo, é porque o País anda engraçado, dentro da sua tristeza. Lendo as notícias dos jornais, tudo parece crônica. Tudo parece mentira. Esse campeonato brasileiro, por exemplo: tem time que já jogou 12 vezes e outro 7. Tem cartola dizendo que jogador que recorrer à Justiça não joga mais no Brasil (isso não é contra a Constituição, não?). O próprio técnico da seleção brasileira é um gato.

Alisou o cabelo para ficar um gato. E ainda arrumou uma gata a cara dele.

E o Lalau? Coitado do Lalau. Tá todo mundo atrás do Lalau. Mas ninguém está atrás de quem deu a grana para ele. Não parece crônica? Não parece mentirinha? O outro, que superfaturou tanto quanto ele, é candidato a nosso prefeito. Dois pesos, duas medidas.

Acho que é isso. Não foi branco que deu na cabeça do cronista. Deu preto! O País é uma crônica só. Basta bater o olhar na primeira página de qualquer jornal para ficar em dúvida sobre o que cronicar.

E todo cronista tem suas manhas. Quando o Rubem Braga estava sem inspiração escrevia sobre borboletas. O Fernando Sabino sempre tinha uma vizinha cronicável (ah, nada como trocar lâmpada para uma vizinha). O Sérgio Porto recorria às suas tias (ah, o amor adolescente das tias d'antanho). O Nélson Rodrigues apelava para as cunhadas (cunhada é o que há, me garantia um chofer de táxi outro dia). O Paulo Mendes Campos mandava um poema lindo. O Millôr filosofava.

Seja crônico. E me perdoe do nada.