Sempre me fazem a pergunta:
- Quais os escritores que te influenciaram?
E se espantam um pouco quando digo que não foram nem
os russos do século passado, nem os franceses do século passado, nem os
ingleses do século passado, nem os portugueses do século passado. E muito
menos os brasileiros do século passado.
Visto assim, o século passado deve ter sido mesmo o
século da literatura. E foi. Pras negas dele.
(Já percebeu que estou sem assunto, né?) É que foram
os cronistas brasileiros deste século que mais me marcaram.
Também, pudera. Veja o time que entrava toda semana
na minha casa. Na revista Manchete tinha o Paulo Mendes Campos, o Henrique
Pongetti, o Fernando Sabino e, como se não bastasse, o Rubem Braga, nosso
cronista maior. E tudo menino, jovem, cronicando lá do Rio.
O Cruzeiro não ficava atrás e nos mandava o Millôr
Fernandes. Isso era semanal. E no dia-a-dia, a Última Hora (do Samuel
Wainer) tinha a competência do Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta), o
Nélson Rodrigues e ainda o kaos do Jorge Mautner, menino, menino.
Impossível não virar cronista.
Depois a crônica andou meio sumida dos jornais. Até
receitas e poemas do Camões davam mais ibope. Os jornais ficaram sérios,
compenetrados, sem espaço para bobagens vãs de crônicos cronistas.
(Fico aqui a pensar o que faziam todos esses que eu
citei, quando dava o branco numa manhã quase primaveril).
E a crônica, pouco a pouco foi voltando para a
imprensa brasileira. Estava pensando nisso ao receber uma carta do Jorge
da Cunha Lima, diretor da tevê Cultura, me convidando (e a outros
cronistas) para escrever crônica para a televisão. É, vamos ser mensurados
pelo ibope pra valer.
Outra coisa: os leitores estão todos se arvorando em
cronistas. Me mandam tantas que resolvi fazer um concurso de crônicas lá
no site onde estou escrevendo um livro on-line (www.marioprataonline.com.br).
Fiquei surpreso com a resposta. Toda semana vamos selecionar uma e em
novembro dar um prêmio de mil e quinhentos reais para a melhor. (Mais
informações no site).
Ou seja (era aqui que eu queria chegar): o Brasil
está cronicando como nunca. Está escrevendo crônicas. E lendo. E por quê?
Porque o jornal ficou pesado. E ficou pesado porque o mundo está pesado. E
aí o leitor resolve ler uma crônica para aliviar a dor da leitura. Mesmo
que seja uma como esta, completamente qualquer nota. Como, aliás, deve ser
uma crônica.
E a crônica tem uma vantagem sobre tudo e todos: tudo
dá crônica. Tudo. E sua característica: quanto mais você escreve sobre o
nada, mais você atinge o tudo. Quando escrevo aqui sobre o quebra-vento
dos carros que não existe mais, o público delira. Quando descrevo a compra
de um colchão, todo mundo se identifica. Nisso está a beleza da crônica.
No nada. No livre pensar, como sempre diz o mestre Millôr.
E se tantas e tantos cronistas estão surgindo, é
porque o País anda engraçado, dentro da sua tristeza. Lendo as notícias
dos jornais, tudo parece crônica. Tudo parece mentira. Esse campeonato
brasileiro, por exemplo: tem time que já jogou 12 vezes e outro 7. Tem
cartola dizendo que jogador que recorrer à Justiça não joga mais no Brasil
(isso não é contra a Constituição, não?). O próprio técnico da seleção
brasileira é um gato.
Alisou o cabelo para ficar um gato. E ainda arrumou
uma gata a cara dele.
E o Lalau? Coitado do Lalau. Tá todo mundo atrás do
Lalau. Mas ninguém está atrás de quem deu a grana para ele. Não parece
crônica? Não parece mentirinha? O outro, que superfaturou tanto quanto
ele, é candidato a nosso prefeito. Dois pesos, duas medidas.
Acho que é isso. Não foi branco que deu na cabeça do
cronista. Deu preto! O País é uma crônica só. Basta bater o olhar na
primeira página de qualquer jornal para ficar em dúvida sobre o que
cronicar.
E todo cronista tem suas manhas. Quando o Rubem Braga
estava sem inspiração escrevia sobre borboletas. O Fernando Sabino sempre
tinha uma vizinha cronicável (ah, nada como trocar lâmpada para uma
vizinha). O Sérgio Porto recorria às suas tias (ah, o amor adolescente das
tias d'antanho). O Nélson Rodrigues apelava para as cunhadas (cunhada é o
que há, me garantia um chofer de táxi outro dia). O Paulo Mendes Campos
mandava um poema lindo. O Millôr filosofava.
Seja crônico. E me perdoe do nada.