Por
que a
culpa?
É o
que
eu tenho perguntado ao
meu
psicanalista de
plantão.
No princípio era o verbo e eu achava que só eu me sentia
culpado. Com o passar do tempo (e da verba) fui descobrindo que todo
criador tem culpa. Não no cartório. Mas na consciência.
Vou tentar explicar.
Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja,
um criador, não faz porra nenhuma o dia inteiro. Fica só pensando. É
verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como
trabalho. Daí a culpa ensimesmada. Será que só pode ser considerado
trabalhador o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório,
ouvindo pela janela "olha a uva de Atibaia", "melancia barata, melancia
barata"?
Você vê uma frase num out-door tipo "isso é que é". São
quatro palavrinhas mágicas. O sujeito que inventou isso deve ganhar uma
fortuna por mês. O que ninguém entende é que ele trabalha há vinte neste
ofício. Pode ser que a frase tenha saído de um estalo. Mas um estalo
vinte anos depois. Não precisa ser nenhuma brastemp para se ter uma
idéia dessas. Ou precisa? Mas o povo pensa: ganhar essa fortuna para
escrever uma bobagem dessas?
Cada vez que lanço um livro, estréio uma peça de teatro ou
vou ao cinema ver um filme com roteiro meu, me dá pânico. Fico pensando:
o pessoal vai pensar que eu escrevi isso na maior moleza. Que eu sou um
vagabundo. E eu, realmente, fico achando que sou? Algumas mulheres
trabalhadeiras já me jogaram isso na cara. E tome divã!
As crônicas, por exemplo. Escrevo uma vez por semana no
Estadão e ganho mais que muitos coleguinhas que dão duro lá o dia
inteiro e ainda fazem, de vez em quando, um plantãozinho de fim de
semana. Fico com culpa. Sei que não devia, mas fico.
Para aliviar meu sofrimento, penso no Romário que
"trabalha" umas doze horas por mês e ganha 100 mil dólares. Será que ele
tem culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem trabalhar, jogando
futebol, será que ele acorda com culpa, vendo, todo dia, a sua mulher
sair cedo e dar um duro danado no cinema, na televisão e ainda, de
noite, fazendo um teatrinho?
Vou almoçar no Pé Prafora e quase emendo com o fim do dia.
Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão
a ler agora. Depois, no fim do mês, vou receber a grana de um simpático
funcionário que deve - com certeza - ganhar menos do que eu para
trabalhar ali, o mês inteiro. Fazendo o meu cheque. Não tem jeito de não
bater a culpa.
Fico pensando em Deus, que só trabalhou seis dias e tirou
o sétimo para descansar. Mentira dele. Descansou o resto da vida. Ou
você conhece mais algum trabalho dele nesses anos todos? Deve andar
culpadíssimo. Mesmo porque, na hora de enfrentar o batente mesmo e
apanhar na cara, mandou o filho. Este sim, trabalhou, deu duro e morreu
pobre.
Eu, pelo menos, trabalho. Penso, invento, crio. E esses
funcionários fantasmas, que trabalham em várias repartições e nunca
comparecem? Será que eles não têm culpa? Será que só eu me sinto culpado
neste país?
Uma vez perguntei para o Chico Buarque, que acabava de
acordar às duas da tarde, se ele não tinha culpa. "Já tive. Superei". E
o Caetano Veloso que nunca acorda antes das quatro (da tarde)?
Conta uma lendas que quando Einstein esteve no Brasil foi
recepcionado pelo Austregésilo de Athayde. O imortal andava com um
caderninho para ir anotando as idéias para seus livros e ensaios.
Perguntou se o genial Eistein não fazia o mesmo. No que ele respondeu:
"Não. Só tive uma idéia na vida". E o pior, é que essa idéia tinha só
três letrinhas. Aquela famosa língua dele para fora denota um certo
sinal de culpa. Deve ter morrido, relativamente, cheio de culpas.
Quanto menos escrevo e mais ganho, vou me sentindo, cada
vez mais, subdesenvolvido e comunista. Quando deveria ser o contrário,
como afirma o meu psiquiatra. Ele, por exemplo, não sente culpa nenhuma
de ficar ouvindo os meus lamentos entre um bocejo e outro. Ou será que
tem? Jamais saberei lidar com a culpa dele. Basta a minha.
Isso é que é!