"Pequena janela móvel
situada logo após o pára-brisa dianteiro de veículos automóveis e que
dirige o vento para a direção desejada".
Lembra dele? O velho e bom
quebra-vento? E já percebeu que não existe mais quebra-vento? A definição
ali de cima é do Aurelio, o que vem constatar a importância do mesmo. Virou
verbete. Nas próximas edições, deverão colocar "que dirigia
o vento para a posição desejada".
Tudo no mundo vai
acontecendo tão rapidamente que a gente vai perdendo os ganhos sem perceber.
O quebra-vento, na minha opinião, é uma perda irreparável. Duvido que ele
volte, um dia. Ou uma noite.
O quebra-vento era genial.
Tal qual o Carlinhos Moreno (o Washington Olivetto fez um livro lindo sobre o
garoto) ele tinha 1001 utilidades. Ou mais.
Neste fim-de-semana vim da
praia para casa pensando nele. Melhor ainda, na falta dele. Cheguei a algumas
conclusões definitiva e sociologicamente importantíssimas. Uma delas: o
desaparecimento dele se deve - também - à campanha anti-tabagista. Com o
quebra-vento você podia fumar dentro do carro tranqüilamente com a ponta do
cigarro para fora, através dele. Não entrava a fumaça para dentro,
protegendo até caronas asmáticos. E mais, batia a cinza lá para fora.
Ecologicamente correto.
Claro que, naquele tempo,
quase nenhum carro tinha ar condicionado. Ele - e apenas ele - era o ar
condicionado, o refrigério daqueles tempo difíceis. E como era bom você
direcionar o quebra-vento no seu próprio peito. Tá certo que todos os
detritos dos escapamentos alheios vinham junto. Mas era uma viagem e, numa
viagem, o que importa é o prazer. Aquele vento no peito, no queixo, curava até
ressaca. Sim, se você estava de porre, aquele vento te confortava até chegar
em casa são e salvo. Era mesmo uma proteção anti-etílica.
Só que, quando chovia e
você abria o QV, ficava pintando umas gotas no joelho esquerdo.
Lembra, encharcava a calça Lee. Mas, até isso era reconfortante. Em alguns
carros - o fusca, por exemplo - inventaram uma espécie de canaleta para
proteger dessa aguinha. Em vão. A canaletinha enchia e enchia o saco.
E quando você trancava a
porta com a chave dentro? Bastava enfiar um arame por ele - sempre ele - e
levantar a alavanquinha. Para os mais aflitos, ia no pontapé mesmo.
Eu acho que o QV também
começou a sumir quando surgiu aquela travinha para evitar maus olhados e
alheios. Lembra? Você enfiava aquilo no meio dele e achava que estava
protegido. Qualquer chave de fenda arrebentava aquilo. Mas todo mundo - como a
gente era ingênuo! - tinha a travinha. Mas a travinha dava um certo trabalho
porque, para abrir o QV, toda vez você tinha que abaixar o vidro todo, ali,
na maçaneta, manualmente, fazendo a chuva entrar impavidamente. Depois
levantar de novo com o QV devidamente direcionado.
Era o ar condicionado da época.
E tinha lá suas vantagens: o motor não ficava mais fraco, não. E a alegria
maior era quando você abria os dois das duas janelas, jogando o ar para
dentro. Era uma ventania danada. Aquele furacão dava um certo prazer.
Um dia, algum engenheiro
(americano, com certeza) resolveu acabar com a nossa alegria. E não avisou
ninguém, não chamou a imprensa. Fez a coisa sorrateiramente, provavelmente
na calada da noite. Inventou o vidro inteiro tirando o ar do nosso peito
varonil. E, como ninguém percebeu, não foi nem julgado e nem condenado, o
assassino dos nossos ventos.
Comecei a olhar os poucos
fuscas que ainda rodam por aí. Todos eles com os devidos quebra-ventos.
Aqueles motoristas são felizes e não sabem. Os que usam as amarelas Brasílias
também. Invejo esses caras.
O que nós todos estamos
precisando é isso: um arzinho na nossa cara. Não um ar condicionado, mas um
vento incondicional para nos deixar alerta até mesmo contra os ladrões que
entravam por ali, pelo quebra-ventos, e hoje entram com carros importados e
toda a impunidade que os ventos de Brasília sopram em seus peitos.