Volto a Deus (literalmente). Nunca recebi tantas
cartas e e-mail como esta semana. O Deus é mesmo grande e mexe com as pessoas. Foram umas
vinte cartas. Apenas três não entenderam do que eu estava falando e acharam que eu
estive debochando de Deus. Os outros, entenderam que era do Brasil que eu estava falando.
Do Brasil e de nós mesmo.
Escolhi uma das cartas, de uma mãe de São Paulo.
"Estou lhe escrevendo por causa da sua
crônica desta semana.
Por coincidência esta semana eu também perguntei
muito por Deus, eu também quis muito saber quem é Ele e onde Ele está. Mandei muitas
cartas, para muita gente, para revistas, jornais, até para o Presidente FHC, mas o
assunto que eu abordava já está muito batido, já é assunto esgotado nas pautas.
Essa semana, mais precisamente, nesta
terça-feira, dia 11 de Abril, um amigo de classe do meu filho, de apenas dezesseis anos,
foi brutalmente assassinado. O horário? Quatro horas da tarde. O local? Em frente à casa
da namorada dele. O motivo? O criminoso não queria que ele passasse mais por aquela rua.
É a minha indignação que me faz escrever sem
parar. Eu também sou mãe, sou eu que administro minha casa sozinha e cuido de dois
filhos jovens. Assim como a mãe do menino que morreu. Nós cuidamos dos nossos filhos com
uma esperança no coração. A esperança de que se os transformarmos em homens de bem,
num futuro breve nosso país também pode vir a ser um lugar melhor. Mas a nossa realidade
insiste em nos desmoralizar. Nossos políticos não se constrangem em nos mostrar em rede
nacional que o único objetivo deles é encher os cofres dos bancos estrangeiros. Por
isso, a única autoridade que resta para apelarmos é Deus, e sua intervenção tem que
ser urgente! Nós não queremos mais que nossos filhos morram por uma causa alheia e
vil!"
Agradeço à missivista (que palavra divina!) e
dou um outro exemplo do sumiço do Deus.
Dois sujeitos estão discutindo no parque D.
Pedro, em São Paulo. Um está acusando o outro de ladrão. Xinga, diz que ele roubou isso
e aquilo. O outro retruca e diz que o ladrão é o que está acusando. O primeiro retruca
e diz que tem provas que ele roubou isso e aquilo. E mostra as provas. O segundo acusa
mais violentamente o primeiro. Mostra uns documentos encardidos. Vai passando um policial
por perto, vê um provando que o outro é ladrão e vice-versa, chama a rádio-patrulha
(ainda existe isso?) e os dois vão presos e condenados. São ladrões confessos, oras!
No mesmo dia, em pleno Senado brasileiro, o
presidente da casa chama o presidente do partido da situação de ladrão. O presidente
contra-ataca: ladrão é vossa excelência (que termos medievais!). E mostra as provas e
ainda pede para o senador ficar caladinho. O senador pega uma reluzente pasta e prova que
o outro é que é ladrão. Ficam os dois ali, com milhões (milhões!) de brasileiros
assistindo pela televisão a cores e ao vivo. Que gracinha.
Só que, no caso, não pareceu nenhum guardinha e
em Brasília não tem - definitivamente - rádio-patrulha. Nenhum dos dois foi preso. Os
jornais, no dia seguinte, publicaram todas as acusações tanto de um com outro, dando
até os valores dos roubos. Pelo o que eu entendi, os dois parecem que são ladrões
mesmo. Mas, ao contrário dos dois pés-de-chinelo, tudo ficou bem, tudo isso é normal.
Acho que até o presidente da república deve ter
ficado sabendo deste bateboca.
Mas o presidente da república não é Deus.
Embora pense que seja. Assim como o presidente do senado e o presidente do partido do
presidente.
Resumindo e esclarecendo de uma vez por todas: tem
muita gente por aí achando que é Deus. Sim, porque o verdadeiro Deus, quando resolver
acordar e agir, vai sobrar chibatada pra tudo quanto é lado. Ah, como eu gostaria que
Deus invadisse mais uma vez os Templos do Poder.
Com esse Deus eu fico. E não abro. Mas que ele
anda sumido, isso anda.