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4355 TOQUES SOBRE CRIAÇÃO

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Revista Meio e Mensagem

1995

 


É inevitável. A pessoa conhece um escritor e logo jorram as mesmas intrigantes perguntas de sempre:

- Como você escreve? A que horas você escreve? Tem musa? E quando você não está inspirado?

Devo confessar que isso me irrita um pouco. Essa curiosidade. Quando eu encontro com um engenheiro, por exemplo, eu não fico perguntando para ele como é que ele faz os cálculos de um edifício. Nem pergunto para o médico se ele tem alguma musa na hora de uma operação de emergência.

Eu disse que me irrito mas - devo confessar - eu tenho a mesma curiosidade para com os outros criadores. Realmente o ato de criar, seja um texto, uma música, um quadro, me intriga. Intriga a todos. Como é que uma pessoa, a partir do nada, cria alguma coisa?

Adoraria saber, por exemplo, onde é que o Vinícius de Moraes estava com a cabeça quando escreveu "a tonga da mironga do cabuletê", em parceria com o Toquinho.

E o olhar da Gioconda posando? Onde estava a cabecinha dela, naquela hora, olhando para o píncel mágico do pintor? Aliás, vai aqui uma fofoca criativa: dizem que quem posou foi um rapazinho. Aí o mistério da criação desperta mais curiosidade ainda. Por que um rapazinho? Qual era a idéia do criador?

E por falar em criador, em que musa Deus se inspirou para criar o mundo? Deve ter se exaurido, pois tirou um dia para descansar e observar a obra. Será que ele ficou contente com a sua arte? Por que ele não colocou os seios das mulheres nas costas para facilitar na hora do abraço? Só ele poderia responder, mas depois do descanso, sumiu, comprovando, portanto, não ter gostado do que fez.

O que eu estou querendo dizer é que o ofício do escritor é um ofício como outro qualquer. As pessoas vivem me dizendo: "não consigo escrever nem uma linha. É tão difícil!" Ora, minha senhora, difícil é operar uma hérnia, construir uma ponte, defender o O. J. Simpsom, difícil é colocar um aparelho ortodôntico numa criança ou mesmo marcar um gol de bicicleta. Escrever é fácil e a gente tira de letra, literalmente. Afinal, no princípio era o verbo. Depois é que a gente sacou que podia vir a verba.

Aliás, uma vez uma estagiária de jornalismo perguntou ao escritor americano William Faulkner se era difícil escrever e ele respondeu:

- Minha filha, ou é facílimo ou é impossível!..

E tem aquele lado romântico da profissão, o lado da tal musa. Que eu me lembre, desde Dante, com a sua musa Beatriz, que não se fazem mais musas como antigamente. Imaginem se um autor de telenovelas, por exemplo, obrigado a escrevinhar 30 páginas por dia, pode depender de uma musa inspiradora lá pela página 25. Outro dia liguei para o Vitor Martins (parceiro do Ivan Lins) ao meio dia para convidá-lo para almoçar e ele disse que não podia porque o Ivan ia gravar uma música deles às quatro da tarde e ele ainda não tinha nem começado a escrevê-la.

O que eu quero dizer é que essa nossa profissão é como outra qualquer. Tá certo que eu posso escrever a hora que eu quiser. Tá certo que eu posso trabalhar na beira da piscina fumando unzinho. Tá certo que as melhores idéias eu tenho é mesmo de madrugada em barzinhos vagabundos. Tá certo que eu acordo a hora que eu bem entender.

Assim como está certo que este texto que você está lendo tem que ter 4.000 caracteres de computador e eu ainda estou no 3.042. Tá certo que daqui para a frente eu vou encher linguiça porque eu assumi um compromisso com o editor desta nova revista de escrever 4.000 caracteres e vou escrever. E tenho o compromisso comigo mesmo que você vai ter que ficar me lendo até o final, senão no próximo número eles não vão me chamar.

O que eu estou querendo deixar claro é que existe uma relação, neste momento, entre o criador (eu), o produtor (a revista) e você (o leitor). Estou, neste exato momento, criando este texto e, ao mesmo tempo, sendo fotografado para a revista Isto é, atendendo um telefonema do meu contador, assinando um cheque para o meu filho comprar os livros da escola e, ainda por cima, com dor de cabeça.

Mas, como profissional e criador, trabalhando. Deu para vocês perceberem que é um trabalho igual a qualquer outro? Que não existe nada de musa? E que, finalmente, cheguei aos 4.000 caracteres? Para ser exato, 4355.